Bem-aventurados vocês, os pobres
Em Lucas 6:17-21, Jesus chama de bem-aventurados os discípulos pobres, com fome e que choram. O que essa palavra quer dizer e por que o Reino já pertence a eles.
Dia 1 de 40
Leitura
17Jesus desceu com eles e parou num lugar plano. Estavam ali muitos dos seus discípulos e uma imensa multidão procedente de toda a Judéia, de Jerusalém e do litoral de Tiro e de Sidom, 18que vieram para ouvi-lo e serem curados de suas doenças. Os que eram perturbados por espíritos imundos ficaram curados, 19e todos procuravam tocar nele, porque dele saía poder que curava todos.
20Olhando para os seus discípulos, ele disse: “Bem-aventurados vocês, os pobres, pois a vocês pertence o Reino de Deus. 21Bem-aventurados vocês, que agora têm fome, pois serão satisfeitos. Bem-aventurados vocês, que agora choram, pois haverão de rir.”
“Bem-aventurado” virou palavra de igreja. A gente ouve, acha bonita e segue em frente, como se quisesse dizer algo parecido com “sortudo” ou “cheio de coisas boas”. Se fosse isso, a frase de Jesus não faria sentido. Ninguém chama de sortudo quem está com fome.
Quem estava ouvindo
Lucas conta que Jesus passou a noite orando no monte e, de manhã, escolheu os doze. Depois desceu com eles e parou num lugar plano. Ali havia gente de todo tipo. Os doze, que tinham acabado de ser chamados. Muitos outros discípulos, que já o acompanhavam havia algum tempo. E uma multidão enorme, vinda de longe para ouvi-lo e ser curada: doentes, atormentados e, com certeza, alguns que estavam ali só para ver o que ia acontecer. “Todos procuravam tocar nele, porque dele saía poder que curava todos.”
Era uma plateia parecida com a de qualquer igreja hoje. Havia quem seguia Jesus de verdade, havia quem gostava do que ele fazia e havia quem só estava curioso. É no meio dessa mistura que ele começa a falar, e Lucas registra para quem ele olhava: para os seus discípulos. A multidão ouve tudo, mas a palavra tem endereço. O que vem a seguir funciona como um raio-x. Antes de dizer o que alguém deve fazer, Jesus mostra quem pertence a ele, e quem ouve com atenção sai perguntando em que lado está.
A palavra
Na boca de Jesus, bem-aventurado é uma sentença de Deus sobre alguém. No livro de Salmos, a NVI traduz a mesma ideia por “como é feliz”, e o Salmo 1 começa assim: “Como é feliz aquele que não segue o conselho dos ímpios”. Dá para ler esse versículo de dois jeitos. No primeiro, a pessoa conquista a felicidade evitando o mal. No segundo, ela evita o mal porque Deus já a fez feliz. A diferença parece pequena, mas separa a religião do esforço da vida de quem foi alcançado.
O Salmo 32 desfaz a dúvida: “Como é feliz aquele que tem suas transgressões perdoadas e seus pecados apagados!” A felicidade da Bíblia começa no perdão, e o perdão vem de Deus. Ninguém absolve a si mesmo. Então, quando Jesus diz “bem-aventurados vocês”, ele não está dando os parabéns a quem se esforçou. Está pronunciando o veredito de Deus sobre os discípulos.
Os pobres
E o primeiro grupo que recebe esse veredito é o mais estranho: “vocês, os pobres”. Lucas fala de pobreza de verdade. Gente sem reserva, que dependia da colheita, do trabalho do dia e da ajuda de alguém para comer. Não havia poupança nem benefício do governo. Quando faltava, faltava.
A Bíblia não romantiza essa condição. Provérbios 30 guarda a oração de um homem que pede a Deus: “não me dês nem pobreza nem riqueza; dá-me apenas o alimento necessário”. E ele explica o motivo: tendo demais, poderia negar a Deus; ficando pobre, poderia roubar (Provérbios 30:8-9). A falta, sozinha, não torna ninguém santo. Mas os pobres do tempo de Jesus tinham uma coisa que o conforto costuma tirar da gente: eles não conseguiam fingir que davam conta. Quando chegavam diante de Deus, chegavam pedindo.
Repare no tempo do verbo: “a vocês pertence o Reino de Deus”. Não “pertencerá”. O Reino já está nas mãos desses discípulos, e eles não pagaram por ele. Anos depois, Paulo escreveria que Deus nos salvou “não por causa de atos de justiça por nós praticados, mas devido à sua misericórdia” (Tito 3:5). Ninguém entra no céu de cabeça erguida, a não ser pelos méritos de Cristo. Todo mundo que entra, entra como quem recebe um presente que nunca poderia comprar.
Os que têm fome
“Bem-aventurados vocês, que agora têm fome, pois serão satisfeitos.” A fome, em Lucas, também é de verdade: estômago vazio, panela sem nada, a espera pela próxima refeição sem saber se ela vem. E a promessa é generosa. A palavra traduzida por “satisfeitos” vem do vocabulário de quem alimenta o gado no pasto: comer até se fartar. Jesus fala de mesa farta no Reino, comida até sobrar.
Mesmo quem nunca passou fome de pão conhece outra fome que esse versículo ajuda a nomear. É a insatisfação com o que ainda não é como deveria ser. Um mundo que não ama como devia. Uma casa onde as palavras machucam. E, principalmente, o nosso próprio coração. A gente queria amar a família como Cristo amou a igreja, controlar a língua, amar menos o dinheiro, pensar mais nos outros do que em si mesmo. E não consegue.
Essa fome costuma virar frustração, ou uma lista de metas para a semana seguinte. A oração muda quando ela vira outra coisa. Em vez de “Senhor, me ajuda a fazer melhor”, que ainda conta com a nossa força, a gente passa a dizer: “Senhor, eu não sou suficiente para isso.” É a fome de quem descobriu que só Deus pode saciar. E quem tem fome assim tem para onde levá-la.
Os que choram
“Bem-aventurados vocês, que agora choram, pois haverão de rir.” O choro, em Lucas, também é de verdade: o luto, a perda, a dor que ainda não passou, a noite em que ninguém consegue consolar. Jesus não pede a quem chora que engula o choro. Chama de felizes os discípulos que choram agora, e promete que eles vão rir.
Há também choros que a Bíblia ensina a chorar. O choro pelo próprio pecado, quando a gente finalmente enxerga o estrago que fez. O choro pela maldade do mundo, pelas notícias que já não dá para ler sem doer. O choro pelas coisas que entristecem o coração de Deus. São lágrimas de quem começou a ver o mundo como Deus vê e ainda não vê tudo consertado.
Repare de novo nas palavras de tempo: “agora” e “haverão”. Jesus não apressa o riso nem diz que o choro é pequeno. O choro é real hoje. O riso é certo depois. A vida de quem segue Jesus acontece nesse intervalo, e é nele que a gente aprende a esperar sem desistir.
Outro Reino
Para quem olha de fora, tudo isso parece loucura. Chamar de feliz quem tem fome, quem chora, quem não tem nada. Paulo diria aos coríntios que a mensagem da cruz é loucura para os que estão perecendo e poder de Deus para os que estão sendo salvos (1 Coríntios 1:18). Quem vive por essas palavras acaba parecendo um pouco estrangeiro, meio fora do lugar num mundo que mede a vida por conforto, riso e segurança. E está mesmo. Pertence a outro Reino.
Onde você está
Depois de ler um texto assim, sobram duas perguntas simples: quem é você, e onde você está?
Jesus falou olhando para os seus discípulos, gente que tinha largado tudo para segui-lo e continuava sem nada a oferecer. Ele não esperou que melhorassem para chamá-los de felizes. A palavra veio antes de qualquer mérito. Se você o segue de mãos vazias, com a conta apertada, com fome de verdade ou com um choro que não sabe explicar, esta palavra é para você. E se hoje você está naquela multidão só olhando, ainda sem saber se quer segui-lo, o convite continua aberto. O Reino é dado a quem chega a Jesus sem ter o que apresentar.
Para hoje
Leia de novo o versículo 20 devagar. Se você segue Jesus, troque “vocês” pelo seu nome e fique um minuto no verbo: pertence. Depois, pense numa área em que você anda contando só com a própria força e diga a Deus: “Senhor, eu não sou suficiente para isso.”
Oração
Pai, eu venho como os discípulos no lugar plano, de mãos vazias. Obrigado porque o teu Reino não espera que eu tenha algo para te dar. Lembra-te de quem hoje tem fome de verdade e de quem chora uma perda; sacia e consola, como Jesus prometeu. E dá-me fome das coisas certas e lágrimas pelo que te entristece. Em nome de Jesus, amém.
Para meditar ou conversar
Sozinho ou a dois- Quando você pensa numa pessoa “abençoada”, que imagem vem primeiro? O que essa imagem revela sobre o que você chama de bênção, perto do que Jesus chama de bem-aventurado nos versículos 20 e 21?
- Que choro você carrega hoje e ainda não levou a Deus (v. 21)? O que tem impedido você de levar?
- Existe uma fome boa: a insatisfação com o que ainda não é como deveria ser, em você e à sua volta. O que está nessa lista hoje? Já virou oração, ou só frustração?
- Das três palavras de Jesus nos versículos 20 e 21 (pobres, com fome, chorando), qual é mais literal na sua vida esta semana? O que muda saber que ele disse “pertence” e “serão”?
Inspirado na pregação "Bem-aventurados malditos", da série Inversão de Valores, IBB Planalto.
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