Já receberam sua consolação
Em Lucas 6:24-25, Jesus diz "ai" aos ricos, aos fartos e aos que riem agora. O que é esse aviso e o que sobra para quem já recebeu toda a sua consolação.
Dia 2 de 40
Leitura
24“Mas ai de vocês, os ricos, pois já receberam sua consolação. 25Ai de vocês, que agora têm fartura, porque passarão fome. Ai de vocês, que agora riem, pois haverão de se lamentar e chorar.”
Pense no que você mais deseja nesta fase da vida. Talvez uma casa, um emprego estável, um filho bem encaminhado, uma conta que finalmente fecha no fim do mês. Agora imagine que tudo isso chegasse hoje, inteiro, sem faltar nada. O texto de hoje obriga a uma pergunta incômoda sobre esse dia: se o que você mais quer chegasse agora, o que sobraria para receber depois?
O outro lado
Quatro versículos antes, Jesus tinha chamado de bem-aventurados os discípulos pobres, famintos e chorando. Na mesma fala, sem trocar de assunto, ele vira a moeda. Para cada bem-aventurança vem um “ai”. Os discípulos pobres recebem o Reino; os ricos já receberam sua consolação. Os que têm fome serão satisfeitos; os que têm fartura passarão fome. Os que choram vão rir; os que riem vão chorar.
A plateia é a mesma do lugar plano: discípulos, curiosos, gente que veio para ouvi-lo e ser curada. Lucas não diz para quem Jesus olhava agora. Diz a quem o aviso se dirige: aos ricos, aos que têm fartura, aos que riem. Todo mundo ouviu as duas listas, e quem ouve com atenção percebe que não sobra um terceiro lugar para ficar em cima do muro.
O que é um “ai”
Para ouvidos de hoje, “ai” soa como lamento, quase um suspiro. Na boca de Jesus pesa bem mais. Mais adiante em Lucas, ele fala de cidades que viram os seus milagres de perto e continuaram iguais: “Ai de você, Corazim! Ai de você, Betsaida!” (Lucas 10:13). E explica que, se Tiro e Sidom tivessem visto os mesmos milagres, há muito tempo teriam se arrependido. O “ai” anuncia julgamento. É o oposto exato da sentença de bem-aventurado.
Se bem-aventurado é quem está debaixo do favor de Deus, quem ouve um “ai” está debaixo do seu desfavor. Por isso esses dois versículos pesam tanto: Jesus está dizendo como Deus vê cada um.
Os ricos
“Ai de vocês, os ricos.” Lucas fala de riqueza de verdade, do mesmo jeito que falou de pobreza de verdade: gente com reserva, com mesa cheia, que não depende do trabalho do dia para comer amanhã. E Jesus não condena a mesa farta. Ele não é contra a refeição que satisfaz e termina em agradecimento, nem contra a alegria de batizar um filho, comprar a casa, passar no vestibular. Tudo isso vem de Deus. Paulo disse aos atenienses que é ele mesmo quem “dá a todos a vida, o fôlego e as demais coisas” (Atos 17:25).
O problema começa quando o presente toma o lugar de quem deu. Quando essas coisas viram a fonte da alegria, o ponto alto da vida, a prova de que deu certo. Quando a gente olha para o que tem e pensa: eu consegui, com a força do meu braço. Aí a bênção, que devia ser motivo de gratidão, vira degrau para viver sem precisar de Deus. O pobre do versículo 20 chegava diante de Deus pedindo. O rico do versículo 24 não sente falta de pedir nada.
Repare na palavra que Jesus escolhe: consolação. É o conforto que alguém espera receber. E o verbo que a NVI traduz por “receberam” era usado em recibos de pagamento: recebido, quitado, nada mais a cobrar. Todo mundo vive com expectativas, com aquilo que o coração mais deseja. Quem pôs todas elas nesta vida, e alcançou todas, recebeu a paga inteira aqui. Não sobrou nada para depois.
Davi conhecia esse tipo de gente e pediu a Deus que o livrasse “de homens deste mundo, cuja recompensa está nesta vida” (Salmos 17:14). Lucas volta à mesma ideia na história do rico e de Lázaro, quando Abraão diz ao rico: “durante a sua vida você recebeu coisas boas, enquanto que Lázaro recebeu coisas más. Agora, porém, ele está sendo consolado aqui e você está em sofrimento” (Lucas 16:25).
Os fartos
“Ai de vocês, que agora têm fartura, porque passarão fome.” Fartura também é literal: despensa cheia, comida sobrando. E de novo o que pesa é a satisfação que termina aqui. Paulo lembra o lema de quem não espera nada depois da morte: se os mortos não ressuscitam, “comamos e bebamos, porque amanhã morreremos” (1 Coríntios 15:32). Quem pensa assim é coerente. Se a vida é só isto, faz sentido aproveitar cada mesa.
Difícil de explicar é quando quem diz esperar a ressurreição vive do mesmo jeito. E a gente vive, muitas vezes. Falta disposição para orar pelos irmãos, mas nunca falta para um aniversário. É difícil chegar cedo para estudar a Bíblia, e fácil chegar cedo onde tem comida e festa. Qualquer oportunidade de negócio acende a atenção, e servir alguém que não pode retribuir dá preguiça. A gente torce para o culto acabar logo e voltar para a série da semana.
Ninguém consegue fabricar desejo pelas coisas de Deus só com força de vontade. O primeiro passo é olhar para o próprio coração com honestidade, sem maquiagem, e dizer o que você deseja de verdade. Se a sua fartura vem das mesmas coisas que alegram qualquer pessoa, e servir, dividir e se sacrificar pelo outro não trazem alegria nenhuma, isso é um diagnóstico. Melhor ouvi-lo agora do que depois.
Isso chega também à forma como a gente cria os filhos. É fácil organizar a vida inteira de uma criança para ela “vencer na vida”: curso, reforço, esporte, agenda cheia, e nenhum espaço para aprender a Bíblia ou ser discipulada. Responsabilidade e estudo importam, e filho não deve ser criado para a preguiça. Mas carreira e dinheiro são ferramentas, nunca o tesouro. Dizer a um filho que ele vai ser feliz quando tiver tudo o que o mundo oferece é ensinar a ele a mesma fartura sobre a qual Jesus pronunciou um “ai”. Quando chegar a hora, é bom ensinar também que mais importante do que casar com alguém que tenha dinheiro é casar com alguém que ame o Senhor e ajude a servi-lo.
Os que riem
“Ai de vocês, que agora riem, pois haverão de se lamentar e chorar.” Alegria não é pecado, e a mesa, a festa e o riso com os amigos também vêm das mãos de Deus. O que Jesus chama de “ai” é a alegria posta no centro: eu vivo para isto, e isto me basta. É a pessoa que encontra nesta vida razões suficientes para se sentir completa e nunca mais pergunta pelo que vem depois.
Esse riso funciona como anestesia. Quem está sempre entretido não para para pensar em céu e inferno, vida e morte, Deus e eternidade. Imagine uma boca que vive aberta gargalhando e, justamente por isso, nunca consegue comer. Por fora, a pessoa parece alegre. Por dentro, está desnutrida e nem sabe.
Repare nas palavras de tempo, as mesmas do versículo 21: “agora” e “haverão”. Lá, os que agora choram haverão de rir. Aqui, os que agora riem haverão de se lamentar e chorar. Os dois grupos vivem o mesmo agora. Jesus fala do que acontece quando esse agora acaba.
A saída
Um texto assim poderia terminar em medo, e os ais são sérios. Mas a mesma boca que disse “ai” disse “bem-aventurados” quatro versículos antes, e essa porta continua aberta. Quem passa por ela passa como mendigo, que chega a Cristo sem nada para apresentar, sem se comparar com ninguém, e pede: Senhor, tem misericórdia de mim.
Para quem já segue Jesus, o texto pede um jeito diferente de receber o que Deus dá. A casa, a mesa, o riso com os amigos, o filho que cresce. Cada uma dessas coisas pode virar motivo de gratidão e louvor, em vez de degrau para viver sem ele. O teste é simples: quando algo bom chega, o seu primeiro movimento é agradecer a Deus ou achar que mereceu?
E se hoje você percebeu que a sua consolação está toda aqui, que aquilo que mais deseja termina nesta vida, ainda há tempo. O mesmo Jesus que avisa também recebe. Quem chega a ele de mãos vazias não sai sem nada.
Para hoje
Escreva numa frase o que você mais deseja nesta fase da vida. Depois leia de novo o versículo 24 e pergunte a Deus, com honestidade, se isso tomou o lugar dele. Se tomou, diga isso a ele com as suas palavras.
Oração
Pai, tudo o que eu tenho veio das tuas mãos, e muitas vezes eu tratei como se tivesse vindo das minhas. Perdoa a minha pressa em procurar aqui a consolação que só tu dás. Lembra-te de quem hoje não tem fartura nenhuma, e faz de mim alguém que divide. Ensina-me a receber cada coisa boa como presente e a desejar mais a ti do que a elas. Em nome de Jesus, amém.
Para meditar ou conversar
Sozinho ou a dois- “Já receberam sua consolação” (v. 24): quando o dia é difícil, onde você procura consolo primeiro? O que isso mostra sobre onde está a sua segurança?
- Pense na sua última semana. Para o que sobrou disposição, e para o que faltou? Se alguém olhasse só a sua agenda, o que concluiria que você considera “vencer na vida”?
- Pense numa coisa boa que Deus te deu nos últimos anos. Ela ainda é motivo de gratidão, ou virou a sua consolação (v. 24), aquilo que você mais teme perder?
- Das três palavras dos versículos 24 e 25 (ricos, fartura, riem), qual descreve melhor a sua vida agora? O que muda saber que Jesus disse “agora” e “haverão”?
Inspirado na pregação "Malditas bênçãos: morrendo de tanto rir", da série Inversão de Valores, IBB Planalto.
Texto bíblico: Bíblia Sagrada, Nova Versão Internacional®, NVI®. Copyright © 1993, 2000 by Biblica, Inc.® Usado com permissão. Todos os direitos reservados mundialmente.