Falta-lhe ainda uma coisa
Em Lucas 18:18-23, um homem que cumpria os mandamentos ouve que ainda lhe falta uma coisa. O que Jesus pediu a ele e por que o ídolo quase sempre é algo bom.
Dia 7 de 40
Leitura
18Certo homem importante lhe perguntou: “Bom Mestre, que farei para herdar a vida eterna?” 19“Por que você me chama bom?”, respondeu Jesus. “Não há ninguém que seja bom, a não ser somente Deus. 20Você conhece os mandamentos: 'Não adulterarás, não matarás, não furtarás, não darás falso testemunho, honra teu pai e tua mãe'.” 21“A tudo isso tenho obedecido desde a adolescência”, disse ele. 22Ao ouvir isso, disse-lhe Jesus: “Falta-lhe ainda uma coisa. Venda tudo o que você possui e dê o dinheiro aos pobres, e você terá um tesouro nos céus. Depois venha e siga-me”. 23Ouvindo isso, ele ficou triste, porque era muito rico.
Um ídolo quase nunca tem cara de ídolo. Na maior parte das vezes, é uma coisa boa, que a gente pediu a Deus e agradeceu quando chegou: um trabalho, uma casa, um filho, um sonho antigo, até um ministério na igreja. Enquanto está tudo em paz, ele não aparece. Aparece no dia em que Jesus pede. Foi o que aconteceu com um homem que Lucas apresenta pelo cargo e que parecia ter quase tudo em ordem.
Um homem importante
Jesus está a caminho de Jerusalém, nas últimas lições antes da cruz. Pouco antes, tinha dito que o Reino de Deus é de quem o recebe como uma criança (Lucas 18:16-17). Então chega “certo homem importante”, e Lucas só no fim conta que ele era muito rico. O nome pelo qual a gente o conhece, o jovem rico, vem de Mateus, que diz que ele era jovem.
A pergunta dele é boa: “Bom Mestre, que farei para herdar a vida eterna?” Era o jeito de perguntar como ter certeza de estar entre os que vão viver para sempre com Deus, e um perito na lei já tinha feito quase a mesma pergunta em Lucas 10. Jesus não despreza a pergunta. Mas repare no verbo: “que farei”. O homem queria saber o que devia fazer.
“Bom Mestre”
“Por que você me chama bom?”, respondeu Jesus. “Não há ninguém que seja bom, a não ser somente Deus.” Jesus não está negando a própria bondade. Está recusando a medida do homem. “Bom Mestre”, ali, soa como elogio entre iguais, como quem põe a mão no ombro de um colega e pergunta se está tudo certo. Jesus põe a medida no lugar: bom é Deus. E quem vai dizer “siga-me” três versículos depois está pedindo um lugar que só Deus pode ocupar.
“A tudo isso tenho obedecido”
Então Jesus lista mandamentos: não adulterar, não matar, não furtar, não dar falso testemunho, honrar pai e mãe. Repare quais ficaram de fora. Jesus cita só mandamentos que tratam do próximo e deixa de lado os que tratam de Deus, como não ter outros deuses e não fazer ídolos. O homem responde: “A tudo isso tenho obedecido desde a adolescência”.
Dá para cumprir essa lista pela superfície. Nunca adulterar e alimentar a cobiça por dentro. Nunca matar e guardar um ódio antigo. Nunca furtar e viver de inveja. Quem acha que é bom o bastante para ganhar a salvação ainda não viu o tamanho da própria dívida. E a gente faz parecido: se avalia pelo que aparece, com a própria régua, e se dá nota boa.
“Falta-lhe ainda uma coisa”
Marcos registra um detalhe que Lucas deixa de fora: antes de responder, “Jesus olhou para ele e o amou” (Marcos 10:21). O que vem em seguida é amor dizendo a verdade: “Falta-lhe ainda uma coisa. Venda tudo o que você possui e dê o dinheiro aos pobres, e você terá um tesouro nos céus. Depois venha e siga-me”.
O pedido é literal e inteiro. Jesus mandou aquele homem vender tudo, dar aos pobres e segui-lo. Não era figura de linguagem nem capricho. O Reino vale mais do que tudo, e ele não podia ter as duas coisas. O que faltava era justamente o que tinha ficado fora da lista do versículo 20: Deus acima de tudo. E dentro da ordem havia uma promessa e um convite: um tesouro nos céus e o próprio Jesus, que dizia “siga-me”. Provérbios diz que “Quem fere por amor mostra lealdade” (Provérbios 27:6). Jesus podia ter parado nos mandamentos e deixado o homem ir embora satisfeito com a própria nota. O amor foi até a pergunta difícil. A gente também precisa de quem faça perguntas assim, porque o coração tem pontos cegos, e quase sempre é alguém de fora que enxerga primeiro o que está pesando.
Ficou triste
“Ouvindo isso, ele ficou triste, porque era muito rico.” É fácil imaginar a conta que ele fez naquele momento: cada campo, cada negócio, cada parte do que tinha, e cada parte doía. Em Mateus, Jesus conta a parábola de um homem que encontra um tesouro escondido num campo e, “cheio de alegria”, vende tudo o que tem para comprar aquele campo (Mateus 13:44). O gesto pedido é o mesmo. Muda o que cada um achava que era o tesouro.
Lucas não conta o que aconteceu com ele depois. Marcos diz que ele foi embora triste: naquele dia, pelo menos, não seguiu Jesus. As riquezas, que podiam ser ferramenta, viraram peso. O que a gente ama controla a gente. E a gente só descobre o que ama mais do que Deus no dia em que Jesus pede e a mão não abre.
As coisas boas
A Bíblia não chama a riqueza de pecado. Ela pode vir da mão de Deus, do trabalho honesto, de uma oportunidade. Mas carrega tentações próprias: o orgulho, a sensação de que a gente se basta, a segurança que ela parece prometer. E o texto não transforma o pedido feito àquele homem numa regra para todo mundo. O pedido foi total porque era ali que o coração dele estava preso.
Com a gente, o ídolo costuma morar entre as coisas mais gostosas da vida: os filhos e a família, a carreira pela qual se orou, a casa, os planos, até o serviço na igreja. Pense no emprego que você pediu em oração. Ele chegou, você agradeceu, e com o tempo passou a ocupar o domingo, o descanso e as amizades que antes eram da igreja. Foi acontecendo, sem que ninguém decidisse trocar Deus pelo trabalho.
A régua é simples: quando Jesus pede, a mão abre? Um ídolo é aquilo a que a gente recorre para ter equilíbrio e satisfação, aquilo que não admitimos perder em cenário nenhum. Até o amor mais bonito entra nessa conta. A única maneira de amar bem um filho é amar a Deus acima dele.
Quem abriu mão primeiro
Jesus não pede o que ele mesmo não deu. Embora sendo Deus, ele “esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo” (Filipenses 2:7). O Rei que pede tudo já tinha aberto mão de tudo, e ia entregar a própria vida em Jerusalém.
E a renúncia não compra a vida eterna. Logo depois, quando os que ouviram perguntaram quem então poderia ser salvo, Jesus respondeu: “O que é impossível para os homens é possível para Deus” (Lucas 18:27). Abrir a mão também é obra dele.
Jesus caça os ídolos porque ama e quer a casa inteira, com liberdade para mudar os móveis de lugar. Se você se reconheceu naquele homem, com uma coisa boa que a mão não solta, o mesmo olhar de Marcos 10:21 está sobre você. Ele pede porque quer ser o seu tesouro.
Para hoje
Complete por escrito: “Eu não conseguiria viver sem...”. Depois leia de novo o versículo 22 com essa coisa em mente e diga a Jesus, com as suas palavras, se a sua mão está aberta ou fechada. Se estiver fechada, peça que ele a abra.
Oração
Senhor Jesus, obrigado porque olhas para mim com amor antes de me pedir qualquer coisa. Tu sabes o que a minha mão não quer soltar, e eu não vou fingir que não sei. Lembra-te dos pobres que dependem de quem divide, e ensina-me a abrir a mão para eles. Abre a minha mão e troca a minha tristeza pela alegria de quem encontrou o tesouro. Amém.
Para meditar ou conversar
Sozinho ou a dois- “Falta-lhe ainda uma coisa” (v. 22): se Jesus olhasse para a sua vida hoje com o amor com que olhou para aquele homem (Marcos 10:21), qual seria essa uma coisa? Você já sabe a resposta, ou prefere não perguntar?
- Complete a frase “eu não conseguiria viver sem...”. O que apareceu é uma coisa ruim ou uma coisa boa? O que muda saber que o homem do versículo 23 foi parado por uma coisa boa que possuía?
- “A tudo isso tenho obedecido” (v. 21): em que área você se dá nota boa porque cumpre a parte que aparece? O que ficaria de fora se a régua fosse Deus (v. 19)?
- O homem do versículo 23 ficou triste; o de Mateus 13:44 vendeu tudo cheio de alegria. Na última vez em que Deus pediu algo seu (tempo, dinheiro ou um plano), qual das duas reações chegou primeiro?
Inspirado na pregação "Jesus, o caçador de ídolos: o que não ajuda, atrapalha", da série Inversão de Valores, IBB Planalto.
Texto bíblico: Bíblia Sagrada, Nova Versão Internacional®, NVI®. Copyright © 1993, 2000 by Biblica, Inc.® Usado com permissão. Todos os direitos reservados mundialmente.