Foi do agrado do Pai

Em Lucas 12:22-32, Jesus fala do medo de faltar a um pequeno rebanho. Por que o Pai que alimenta os corvos sabe do que você precisa e já decidiu dar o Reino.

Por Matheus e Andreza13 min de leitura

Dia 6 de 40

Leitura

22Dirigindo-se aos seus discípulos, Jesus acrescentou: “Portanto eu lhes digo: Não se preocupem com sua própria vida, quanto ao que comer; nem com seu próprio corpo, quanto ao que vestir. 23A vida é mais importante do que a comida, e o corpo, mais do que as roupas. 24Observem os corvos: não semeiam nem colhem, não têm armazéns nem celeiros; contudo, Deus os alimenta. E vocês têm muito mais valor do que as aves! 25Quem de vocês, por mais que se preocupe, pode acrescentar uma hora que seja à sua vida? 26Visto que vocês não podem sequer fazer uma coisa tão pequena, por que se preocupar com o restante?

27“Observem como crescem os lírios. Eles não trabalham nem tecem. Contudo, eu lhes digo que nem Salomão, em todo o seu esplendor, vestiu-se como um deles. 28Se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada ao fogo, quanto mais vestirá vocês, homens de pequena fé! 29Não busquem ansiosamente o que comer ou beber; não se preocupem com isso. 30Pois o mundo pagão é que corre atrás dessas coisas; mas o Pai sabe que vocês precisam delas. 31Busquem, pois, o Reino de Deus, e essas coisas lhes serão acrescentadas.

32“Não tenham medo, pequeno rebanho, pois foi do agrado do Pai dar-lhes o Reino.

Lucas 12:22-32 · NVI

Adianta dizer “não tenha medo” a quem tem motivo de verdade para ter? A frase costuma soar vazia quando vem de alguém que não conhece o tamanho da conta, do exame ou da demissão que chegou por mensagem. Jesus disse essas palavras a um grupo pequeno, sem poder nenhum, que subia com ele para Jerusalém, e ele já tinha anunciado que seria morto. Ou a frase era vazia, ou ele sabia de alguma coisa que muda o peso do medo.

Para quem ele falava

Lucas conta que se juntou “uma multidão de milhares de pessoas”, e mesmo assim Jesus “começou a falar primeiramente aos seus discípulos” (Lucas 12:1). No versículo 22, de novo, ele se dirige a eles. Tinha acabado de contar a história do homem que queria derrubar os celeiros para construir outros maiores, e o “Portanto” liga uma coisa à outra.

Esses discípulos já tinham ouvido Jesus dizer que seria rejeitado e morto (Lucas 9:22), e o tinham visto partir “resolutamente em direção a Jerusalém” (Lucas 9:51). O medo deles era razoável, e o capítulo inteiro fala desse medo. “Não tenham medo” aparece nos versículos 4 e 7, antes do 32. No 7, vem junto com uma conta simples: “vocês valem mais do que muitos pardais”.

Os corvos e os lírios

Jesus começa pelo mais básico, comida e roupa. Para muita gente naquele tempo, as duas coisas dependiam do trabalho de cada dia. E a primeira coisa que ele manda fazer é olhar: “Observem os corvos: não semeiam nem colhem, não têm armazéns nem celeiros; contudo, Deus os alimenta.” Celeiros, a mesma palavra da história do rico, que só pensava em construir celeiros maiores. As aves não têm nenhum, e comem. Depois vêm os lírios: “nem Salomão, em todo o seu esplendor, vestiu-se como um deles”. Se Deus veste assim uma erva “que hoje existe e amanhã é lançada ao fogo”, quanto mais vai vestir os seus.

Repare também que Jesus chama os discípulos de “homens de pequena fé” e não manda ninguém embora. Poucas frases depois, chama os mesmos homens de “pequeno rebanho”. Fé pequena continua dentro do rebanho.

O que a preocupação não alcança

“Quem de vocês, por mais que se preocupe, pode acrescentar uma hora que seja à sua vida?” Jesus aponta um limite, e esse limite alivia. A preocupação traz para hoje as lutas de amanhã, mas não traz a solução junto. O sol vai nascer amanhã na mesma hora, com ou sem noite em claro. O que não depende de você não está nos seus ombros.

Quem convive com ansiedade sabe melhor do que ninguém que entender isso não desliga a preocupação. Jesus também não para no argumento. Ele leva os discípulos ao Pai.

O Pai sabe

“Pois o mundo pagão é que corre atrás dessas coisas; mas o Pai sabe que vocês precisam delas.” Na lógica do mundo pagão, tudo depende de cada um: do bom negócio, da esperteza, da oportunidade certa. E repare numa troca de palavra. Nos versículos 24 e 28, é “Deus” quem alimenta os corvos e veste a erva. Nos versículos 30 e 32, Jesus passa a dizer “o Pai”. Quem sabe do que você precisa é o Pai.

Jesus também não trata a necessidade como ilusão: “vocês precisam delas”. A conta do mês, o emprego, os pais que envelhecem, o remédio do filho, tudo isso é necessidade legítima, e trabalhar duro por ela também. O que ele faz é pôr uma ordem: “Busquem, pois, o Reino de Deus, e essas coisas lhes serão acrescentadas.” É uma prioridade com promessa. Ninguém precisa comprar esse pão com esforço espiritual; o Pai já sabe, e já se comprometeu.

Pequeno rebanho

“Não tenham medo, pequeno rebanho.” Rebanho é gente que precisa de pastor. E pequeno: doze e mais alguns, gente simples, sem força para revidar coisa nenhuma. Um deles o trairia, outro o negaria. Jesus não escondia o perigo; no mesmo capítulo falou dos que “matam o corpo”.

Mesmo assim, “não tenham medo” tem outro som em Lucas. É uma frase que aparece logo no começo do evangelho. Um anjo a diz a Zacarias, depois a Maria, depois aos pastores no campo, e nas três vezes ela chega junto com uma boa notícia: “Estou lhes trazendo boas novas de grande alegria” (Lucas 2:10). Em Lucas, esse “não tenham medo” é anúncio. E por trás dele está o mesmo Deus que tem a palavra final sobre a vida e que, segundo Jesus, não esquece nem um pardal: “Até os cabelos da cabeça de vocês estão todos contados” (Lucas 12:7).

Foi do agrado do Pai

Depois vem a razão: “pois foi do agrado do Pai dar-lhes o Reino”. Três palavras merecem atenção. Agrado: o Pai dá porque quer, com prazer, sem má vontade. É a mesma palavra da voz que se ouviu no batismo de Jesus: “Tu és o meu Filho amado; em ti me agrado” (Lucas 3:22). Foi: a decisão já foi tomada, antes do medo desta semana. Dar: o Reino é presente, e não salário.

E esse Reino é o que o povo de Deus esperava havia séculos, e Daniel já tinha anunciado que “o Deus dos céus estabelecerá um reino que jamais será destruído” (Daniel 2:44). Pense no que o seu coração pede quando você vê o mundo fora do lugar: o injusto saindo livre, o justo pagando pelo outro. Você anseia pelo dia em que tudo estará no lugar. É isso que o Pai decidiu dar, o Reino e o Rei.

Nos lírios e nos corvos, Jesus raciocinou do menor para o maior: se Deus cuida das aves e da erva, quanto mais de vocês. Aqui a conta corre ao contrário. Quem já deu o maior não vai esquecer o pão. Paulo faria a mesma conta anos depois: “Aquele que não poupou seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós, como não nos dará juntamente com ele, e de graça, todas as coisas?” (Romanos 8:32). O Pai já decidiu, com prazer, dar o maior. O medo de que falte o menor pode continuar batendo à porta, mas perdeu a última palavra.

Quando o medo volta

Para quem segue Jesus, a promessa não depende de quanto você está calmo hoje. Depende do que o Pai já decidiu. E o medo de faltar volta: de madrugada, no boleto que vence, no resultado do exame, na empresa que anuncia cortes. Medo que volta não é sinal de que o Reino foi retirado. Diante de uma perda, o medo é reação humana. O texto oferece um pensamento para pôr ao lado dele: o Pai sabe, e já decidiu dar.

Nada aqui promete que a ansiedade vai sumir, nem chama de fraco na fé quem precisa de ajuda médica. O que a palavra de Jesus faz é dar ao medo um lugar para onde ir.

Se você segue Jesus, você está nesse rebanho, pequeno como for. E se você ainda está na multidão, só ouvindo, fica sabendo hoje que o Reino é dado de presente. Quem sabe que o Pai decidiu lhe dar o Reino não precisa gastar a vida garantindo sozinho o que o Pai já sabe.

Para hoje

Jesus mandou olhar os corvos e os lírios. Hoje, repare numa ave ou numa planta qualquer no seu caminho. Diga ao Pai o nome do medo de faltar que mais pesa nesta semana e leia o versículo 32 em voz alta, sem esperar sentir calma antes.

Oração

Pai, obrigado porque o teu Reino foi dado com prazer. Tu conheces o medo de faltar que eu carrego nesta semana, e eu o entrego a ti. Lembra-te de quem está sem comida ou sem roupa hoje, e de quem convive com uma ansiedade que não passa; sustenta cada um deles. Ensina-me a buscar o teu Reino e a descansar no teu agrado. Em nome de Jesus, amém.

Para meditar ou conversar

Sozinho ou a dois
  1. Jesus manda os discípulos olharem corvos e lírios (v. 24 e 27). Se ele falasse com você esta semana, que coisa comum da sua rotina usaria para mostrar que o Pai sustenta? E o que você tem olhado no lugar dela?
  2. “O Pai sabe que vocês precisam delas” (v. 30). Do que você precisa neste mês? Qual desses itens você carrega como se fosse problema só seu, que o Pai não conhece?
  3. Jesus chama os seus de “pequeno rebanho” (v. 32). Em que lugar da sua vida você se sente pequeno, sem força ou em minoria agora? O que muda saber que foi justamente a um grupo assim que ele disse “não tenham medo”?
  4. Quando você pede algo a Deus, como imagina a reação dele: impaciente, indiferente, contrariado? De onde veio essa imagem, e o que ela tem a ver com “foi do agrado do Pai” (v. 32)?

Inspirado na pregação "Vivendo em função do Reino: perspectiva é tudo", da série Inversão de Valores, IBB Planalto.

Texto bíblico: Bíblia Sagrada, Nova Versão Internacional®, NVI®. Copyright © 1993, 2000 by Biblica, Inc.® Usado com permissão. Todos os direitos reservados mundialmente.