O cântico da inversão

Em Lucas 1:46-55, Maria canta o Deus que derruba os poderosos e exalta os humildes. Por que a inversão que Jesus pregou já estava no cântico dela antes de ele nascer.

Por Matheus e Andreza11 min de leitura

Dia 3 de 40

Leitura

46Então disse Maria: “Minha alma engrandece ao Senhor 47e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador, 48pois atentou para a humildade da sua serva. De agora em diante, todas as gerações me chamarão bem-aventurada, 49pois o Poderoso fez grandes coisas em meu favor; santo é o seu nome. 50A sua misericórdia estende-se aos que o temem, de geração em geração.

51Ele realizou poderosos feitos com seu braço; dispersou os que são soberbos no mais íntimo do coração. 52Derrubou governantes dos seus tronos, mas exaltou os humildes. 53Encheu de coisas boas os famintos, mas despediu de mãos vazias os ricos. 54Ajudou a seu servo Israel, lembrando-se da sua misericórdia 55para com Abraão e seus descendentes para sempre, como dissera aos nossos antepassados”.

Lucas 1:46-55 · NVI

Antes de Jesus descer ao lugar plano e dizer “Bem-aventurados vocês, os pobres”, a mãe dele já tinha cantado a mesma coisa. Uns trinta anos antes, grávida e ainda sem nada para mostrar a ninguém, Maria louvou um Deus que derruba os poderosos e levanta os de baixo. A inversão que Jesus pregou não era ideia nova. Estava na boca de uma moça de Nazaré antes de ele nascer.

Uma moça que sabia os salmos

Lucas conta que, depois da visita do anjo, Maria foi depressa visitar Isabel, sua parente, numa cidade da região montanhosa da Judeia. Isabel ficou cheia do Espírito Santo e a chamou de feliz por ter crido no que o Senhor lhe dissera. É aí que Maria canta.

O cântico está cheio da Bíblia. Muitas linhas lembram algum salmo, e o conjunto ecoa o cântico de Ana, a mãe de Samuel, que séculos antes tinha orado ao entregar ao Senhor o filho que pediu: “ele humilha e exalta. Levanta do pó o necessitado e do monte de cinzas ergue o pobre” (1 Samuel 2:7-8). Maria conhecia essas palavras, de ouvir ou de ler. Quando o coração transbordou, a boca falou a linguagem das Escrituras, a mesma que o Espírito já tinha usado antes.

Isso diz algo sobre a nossa vida de oração. Quem guarda a Bíblia no coração tem palavras para orar quando a vida aperta, e também quando a alegria é grande demais para caber numa frase comum. Os salmos, principalmente, contam o que os santos antigos viveram diante de Deus e emprestam essa linguagem aos nossos pedidos e aos nossos agradecimentos. Paulo escreveu: “Habite ricamente em vocês a palavra de Cristo” (Colossenses 3:16). Isso não acontece de uma vez. Acontece com leitura diária, ano após ano, e o tempo gasto nisso nunca é perdido.

A humildade da sua serva

“Pois atentou para a humildade da sua serva.” A NVI diz “humildade”, mas a palavra fala mais de condição do que de virtude. Maria era gente de baixo: uma moça de Nazaré, sem posição e sem nome importante. Deus olhou justamente para ela.

E repare como ela chama Deus: “meu Salvador”. Quem canta assim sabe que também precisa ser salva. Escolhida para a honra de ser mãe do Messias, Maria não fala de mérito próprio em nenhuma linha. Fala de misericórdia. Até o “bem-aventurada” que todas as gerações lhe dariam tem uma razão fora dela: “o Poderoso fez grandes coisas em meu favor”.

Jesus usaria uma palavra da mesma raiz no lugar plano, com o mesmo sentido: bem-aventurado é quem recebeu de Deus. Essa é a humildade que o cântico mostra, a de quem sabe que recebeu. Um antigo escritor cristão disse que uma pessoa tem tanto de cristianismo quanto tem de humildade. Nem todo mundo é rico, nem todo mundo estudou, nem todo mundo tem dons que aparecem. Mas qualquer filho de Deus pode se vestir de humildade.

O que Deus fez

Depois, o cântico tira os olhos de Maria e olha para Deus: “Ele realizou poderosos feitos com seu braço; dispersou os que são soberbos no mais íntimo do coração. Derrubou governantes dos seus tronos, mas exaltou os humildes. Encheu de coisas boas os famintos, mas despediu de mãos vazias os ricos.”

Repare nos verbos: realizou, dispersou, derrubou, exaltou, encheu, despediu. Estão todos no passado. Jesus ainda não tinha nascido, e Maria canta como quem fala de coisa feita. Ela conhecia a história do seu povo. Sabia como Deus tinha derrubado Faraó, os filisteus, o orgulho de Hamã e de Belsazar, e como tinha levantado José da prisão, Davi do meio das ovelhas, Ester e Daniel em terra estrangeira. Deus não muda de caráter. O jeito como ele tratou o seu povo antes é o jeito como continua tratando. Conhecer essa história ajuda a esperar do jeito certo: tira de nós expectativas que Deus nunca prometeu e dá ânimo quando tudo parece perdido.

E Maria via isso acontecer com ela mesma. O Deus de Israel estava pondo a maior honra sobre uma moça pobre de Nazaré, num povo que parecia terra seca.

“Soberbos no mais íntimo do coração” mostra onde mora o orgulho que Deus derruba: por dentro, antes de aparecer no trono ou na conta bancária. E o versículo 53 fecha com uma imagem forte: os famintos saem cheios, os ricos saem de mãos vazias. É o mesmo Reino que Jesus anunciaria depois, dado a quem chega com fome e fechado para quem chega achando que já tem tudo.

Aqui está o centro do cântico: quem exalta os humildes é Deus. A inversão não é uma escada que a gente sobe com esforço, fingindo humildade para ser promovido depois. É obra dele. Quem entende isso para de tentar subir sozinho e começa a cantar.

Promessas lembradas

O cântico termina dizendo que Deus ajudou Israel, “lembrando-se da sua misericórdia para com Abraão e seus descendentes para sempre”. Maria pensava na promessa feita a Abraão muitos séculos antes dela: “por meio de você todos os povos da terra serão abençoados” (Gênesis 12:3). E entendia que, no filho que carregava, essa palavra estava para se cumprir.

A gente vive entre a promessa e o cumprimento completo. Ainda não vê todas as coisas no lugar. Ainda chora, ainda espera, ainda ora por coisas que não chegaram. Por isso as promessas de Deus são o pão de cada dia de quem atravessa este mundo, como o maná no deserto. A fé se apoia nelas, e elas aguentam todo o peso que a gente puser em cima. Um dia vamos descobrir, como Maria descobriu, que Deus cumpre o que diz.

A resposta

O cântico começa em louvor: “Minha alma engrandece ao Senhor e o meu espírito se alegra em Deus”. Maria não pede nada nesses versículos. Agradece. É a resposta de quem entendeu que foi vista, escolhida e cheia sem ter nada para oferecer.

Essa é também a resposta que o texto espera de nós. Começar o dia sabendo que somos devedores, que até aqui houve mais misericórdia do que merecimento. Olhar para trás de vez em quando e reconhecer o que Deus fez, como Samuel, que depois de uma vitória ergueu uma pedra, deu a ela o nome de Ebenézer e disse: “Até aqui o Senhor nos ajudou” (1 Samuel 7:12). E misturar mais agradecimento às nossas orações, como Paulo ensinou: “com ação de graças, apresentem seus pedidos a Deus” (Filipenses 4:6).

Se você segue Jesus, a sua história também tem coisas que só Deus poderia ter feito. Talvez não sejam grandes aos olhos de ninguém. Mas quem vive diante do Deus que exalta os humildes não precisa de palco para cantar.

Para hoje

Antes de dormir, lembre uma coisa que Deus fez por você e que você não conquistou. Agradeça por ela em oração antes de pedir qualquer outra coisa.

Oração

Pai, minha alma quer engrandecer a ti. Tu olhaste para mim quando eu não tinha nada para mostrar, e eu nem sempre agradeci. Lembra-te dos famintos e dos que estão por baixo hoje, e enche-os de coisas boas, como Maria cantou. Guarda a tua palavra no meu coração, derruba o orgulho que mora em mim e ensina-me a esperar nas tuas promessas. Em nome de Jesus, amém.

Para meditar ou conversar

Sozinho ou a dois
  1. Maria fala da “humildade da sua serva” (v. 48): como você descreveria a sua condição diante de Deus hoje, sem enfeitar e sem se diminuir de mentira?
  2. Dos verbos dos versículos 51 a 53 (realizou, dispersou, derrubou, exaltou, encheu, despediu), qual você já viu Deus fazer, na Bíblia ou na sua vida? Conte uma vez.
  3. Maria não pede nada no cântico (v. 46-55). Nas suas orações desta semana, o que ocupou mais espaço: agradecer ou pedir? O que isso diz sobre como você tem visto Deus?
  4. Quando o coração de Maria transbordou, saíram palavras que ecoam o cântico de Ana (1 Samuel 2:7-8). Quando o seu transborda, de alegria ou de aperto, que palavras saem? Que promessa de Deus você tem guardada para esses dias?

Com base no comentário de J.C. Ryle a Lucas 1:46-56 (Expository Thoughts on Luke).

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