Limpo por fora
Um fariseu se surpreende porque Jesus não se lavou antes de comer. O que ele responde sobre o lado de fora do copo, e o que enche o de dentro na vida de quem o ouve.
Dia 13 de 40
Leitura
37Tendo terminado de falar, um fariseu o convidou para comer com ele. Então Jesus foi, e reclinou-se à mesa; 38mas o fariseu, notando que Jesus não se lavara cerimonialmente antes da refeição, ficou surpreso. 39Então o Senhor lhe disse: “Vocês, fariseus, limpam o exterior do copo e do prato, mas interiormente estão cheios de ganância e de maldade. 40Insensatos! Quem fez o exterior não fez também o interior? 41Mas dêem o que está dentro do prato como esmola, e verão que tudo lhes ficará limpo.”
Lavar as mãos antes de comer parece o assunto menos espiritual da Bíblia. Soa como etiqueta, costume de outro povo e de outro tempo, ou regra de higiene. Só que a surpresa do fariseu desta história tinha pouco a ver com sujeira. Lucas diz que Jesus não se lavara “cerimonialmente”, e para aquele homem a água era a marca de quem está limpo diante de Deus. Jesus responde falando do que enche o copo, e a partir daí a cena chega a qualquer um que tenha a sua própria água.
Um convite para comer
Assim que Jesus terminou de falar à multidão, um fariseu o convidou para comer com ele. O último aviso tinha sido cuidar para que a luz que há dentro da pessoa não fosse trevas. Jesus foi e reclinou-se à mesa. O fariseu notou que ele não se lavara cerimonialmente antes da refeição e ficou surpreso. Lucas registra só a surpresa.
O costume aparece explicado em Marcos: os fariseus e todos os judeus não comiam sem lavar as mãos cerimonialmente, “apegando-se, assim, à tradição dos líderes religiosos”, e lavavam também “copos, jarros e vasilhas de metal” (Marcos 7:3-4). Por isso a imagem que Jesus usa em seguida está ali, em cima da mesa: o copo e o prato. Era um cuidado sério, feito com a intenção de agradar a Deus.
Gente que levava Deus a sério
É fácil fazer dos fariseus os vilões da história. Muita gente, lendo a resposta de Jesus, acha que ele foi duro demais com um anfitrião educado. Eles começaram como gente que queria guardar a fé do povo num tempo em que ela se misturava com costumes estrangeiros, e a intenção era boa. O nome deles costuma ser explicado como separados. Com o tempo, somaram à lei de Deus normas e ritos próprios, e esses ritos viraram a régua de quem é piedoso: quem não faz isto e aquilo não está perto de Deus. Jesus não cabia nesse critério. E, mesmo assim, este fariseu abriu a casa para ele.
O copo e o prato
Então o Senhor fala, e a resposta vai para o homem que o convidou e, com ele, para os fariseus como grupo: “Vocês, fariseus, limpam o exterior do copo e do prato, mas interiormente estão cheios de ganância e de maldade.” A palavra que a NVI traduz por “ganância” tem o sentido de tomar à força, de saque. O copo brilha por fora e, por dentro, está cheio do que foi tomado de alguém. Pense num copo que brilha na prateleira e guarda no fundo o resto de alguma coisa estragada. De longe, parece pronto para a mesa; quem vai beber sente o gosto.
O fariseu reparou na água que faltou nas mãos de Jesus, e Jesus falou do que água nenhuma alcança.
Quem fez o de dentro
“Insensatos! Quem fez o exterior não fez também o interior?” A pergunta explica a própria palavra forte: é insensatez cuidar do que se vê como se Deus olhasse só para isso, quando foi Deus quem fez o de dentro. A dureza de Jesus tem por base um pecado, e aqui ele o nomeia à mesa de quem o convidou. Ele fez o de dentro, e quem fez pode chamar as coisas pelo nome.
O que está dentro do prato
“Mas dêem o que está dentro do prato como esmola, e verão que tudo lhes ficará limpo.” Esmola é comida e dinheiro dados a quem precisa. A NVI anota que a expressão também pode ser traduzida por o que vocês têm. O movimento está no próprio texto: o de dentro estava cheio de ganância, de tomar, e o remédio é dar. Quem tomava passa a dar, e o copo começa a mudar de conteúdo. Logo em seguida, Jesus diria que eles desprezavam “a justiça e o amor de Deus” (Lucas 11:42). A esmola do versículo 41 vai nessa direção: o de dentro saindo e chegando a alguém de carne e osso.
Dar esmola, aqui, não é outro jeito de lavar as mãos. É o de dentro, que estava cheio de tomar, indo para quem precisa. A limpeza que o fariseu procurava na água começa do lado de dentro, onde só quem o fez consegue mexer, e aparece no prato que chega a quem precisa.
O que a gente lava
Todos nós temos preferências, ideias, sinceridade, boas intenções, e o risco é achar que este texto não é com a gente. A gente também tem a sua água. O culto, o batismo, os versículos decorados, a oração em voz alta, o vocabulário certo. São coisas boas, e Jesus não manda abandoná-las. O perigo é a religião virar casca e maquiar o coração. Em vez de olhar para dentro, a pessoa se consola com as coisas boas que faz por fora. A religiosidade vira distração e acaba tirando da pessoa justamente o que Deus usa para mostrar o pecado e fazê-la correr para Cristo. E o de fora ainda mente para a própria pessoa, que passa a acreditar no brilho do copo. Dá para ser admirado por todos e, por dentro, estar cheio do que foi tomado.
A oferta que todo mundo vê, ao lado da conta de quem precisa que ninguém paga. O serviço feito com o cálculo do que a gente ganha em troca. A palavra certa na hora certa, e o coração longe dali. O versículo decorado na boca, e a mágoa guardada no mesmo coração. E o copo continua limpo por fora.
Quem limpa o de dentro
Água nenhuma chega ao de dentro, nem as nossas melhores obras: “Todos os nossos atos de justiça são como trapo imundo” (Isaías 64:6). Se foi Deus quem fez o de dentro, é ele quem pode limpá-lo. Paulo queria “ser encontrado nele, não tendo a minha própria justiça que procede da Lei, mas a que vem mediante a fé em Cristo” (Filipenses 3:9). O que Deus procura é uma comunhão viva com ele, com Cristo no centro dos afetos.
Quem se reconheceu no copo bem lavado por fora tem por onde começar: levar o de dentro a quem o fez, e deixar que ele o encha de outra coisa. Aí o que está no prato começa a chegar a quem precisa.
Para hoje
Olhe hoje para uma prática sua que os outros veem, como a oferta, o culto ou a oração em voz alta, e pergunte a Deus o que ele encontra dentro do copo nessa área. Depois dê a alguém que precisa alguma coisa do que está no seu prato.
Oração
Pai, eu cuido do que aparece e descuido do que só tu vês, e foste tu que fizeste também o meu interior. Limpa o que eu não alcanço, e faz o que está no meu prato chegar a quem precisa. Supre hoje quem não tem o que comer. Obrigado por Cristo, em quem eu posso ser encontrado. Em nome dele, amém.
Para meditar ou conversar
Sozinho ou a dois- “Mas dêem o que está dentro do prato como esmola” (v. 41): essa é a única coisa que Jesus manda nesta cena. O que isso pede de você hoje, e o que seria ir além do que ele disse?
- “Então Jesus foi, e reclinou-se à mesa” (v. 37): ele entrou na casa de um homem que o mediu pela água das mãos, e disse na mesa o que havia dentro do copo. O que esse gesto mostra do jeito dele chegar perto de gente religiosa? Agradeça por isso.
- “Interiormente estão cheios de ganância e de maldade” (v. 39): qual foi a última coisa que você tomou para si e ninguém viu, um troco, uma hora de serviço, o crédito de um trabalho? Diga a Deus o que foi.
- “Quem fez o exterior não fez também o interior?” (v. 40): o que você pede hoje a quem fez o seu interior, sem prometer nada em troca? Em uma frase.
Inspirado na pregação "Os aliados dos nossos inimigos são nossos inimigos também", da série Inversão de Valores, IBB Planalto.
Texto bíblico: Bíblia Sagrada, Nova Versão Internacional®, NVI®. Copyright © 1993, 2000 by Biblica, Inc.® Usado com permissão. Todos os direitos reservados mundialmente.