Não fiz mais que minha obrigação

Jesus conta de um servo que volta do campo e ainda prepara o jantar do senhor. Por que ele manda dizer que apenas cumprimos o nosso dever, e o que isso faz com o mérito.

Por Matheus e Andreza11 min de leitura

Dia 12 de 40

Leitura

7“Qual de vocês que, tendo um servo que esteja arando ou cuidando das ovelhas, lhe dirá, quando ele chegar do campo: 'Venha agora e sente-se para comer'? 8Ao contrário, não dirá: 'Prepare o meu jantar, apronte-se e sirva-me enquanto como e bebo; depois disso você pode comer e beber'? 9Será que ele agradecerá ao servo por ter feito o que lhe foi ordenado? 10Assim também vocês, quando tiverem feito tudo o que lhes for ordenado, devem dizer: 'Somos servos inúteis; apenas cumprimos o nosso dever'”.

Lucas 17:7-10 · NVI

Você chega da escola com o boletim cheio de notas altas. Na sala, os colegas contavam o que ganhariam dos pais por nota boa, e no caminho você já fez as contas do que vai pedir. Em casa, sua mãe está no fogão e nem se vira: “Não fez mais que a sua obrigação. Agora vem me ajudar a catar o feijão.” Muita gente ainda sente a pontada dessa frase quando lembra dela. Jesus contou aos apóstolos uma história que termina com palavras parecidas, e repare em quem ele põe para dizê-las.

Depois de um pedido pesado

Jesus tinha acabado de falar aos discípulos sobre não fazer os pequeninos tropeçarem e sobre perdoar o irmão que se arrepende, mesmo que ele peque sete vezes no mesmo dia. Os apóstolos sentiram o peso e responderam: “Aumenta a nossa fé!” (Lucas 17:5). É um pedido compreensível. Viver atento aos outros, protegendo, confrontando e perdoando, pedia deles mais do que achavam ter. Jesus falou de uma fé do tamanho de uma semente de mostarda e contou uma história aos mesmos homens. O “Qual de vocês” que abre a leitura são eles.

Um servo que chega do campo

Um servo esteve “arando ou cuidando das ovelhas” e chega do campo. Ninguém lhe diz: “Venha agora e sente-se para comer”. Ele prepara o jantar, se apronta, serve, e só depois come. Repare na pergunta de Jesus: “Qual de vocês que, tendo um servo”. Os apóstolos ouvem a história sentados na cadeira do dono, e nenhum deles achava a ordem estranha.

A palavra traduzida por “servo” é a palavra para escravo. Naquele mundo, o escravo pertencia a alguém, e Jesus pega uma cena que todo ouvinte conhecia, como pegava sementes e moedas, para falar da relação com Deus. A história não aprova a escravidão nem é um manual sobre como tratar quem trabalha para a gente. Ninguém pode usá-la para exigir de outra pessoa uma submissão calada, no trabalho ou em casa.

“Será que ele agradecerá ao servo?”

Jesus pergunta: “Será que ele agradecerá ao servo por ter feito o que lhe foi ordenado?” Na cena, a resposta esperada é que não. Fazer o que foi mandado era o trabalho dele, e ninguém esperava que o dono ficasse devendo por isso. O dono também não precisava inventar agrados para o servo continuar querendo servir. Quem é servo não espera ser convencido de novo a cada ordem. O versículo descreve o costume de uma cena que todos conheciam. O que Deus sente pela obediência dos seus fica fora desta história.

“Assim também vocês”

“Assim também vocês, quando tiverem feito tudo o que lhes for ordenado.” Aqui a história vira. E o que lhes tinha sido ordenado, naquele momento, era o que Jesus acabara de mandar: não fazer ninguém tropeçar, repreender o irmão, perdoar. Eles pediram mais fé para dar conta. Quando Deus pede algo difícil, a gente reage como eles e pede mais fé. Jesus responde lembrando quem é o servo e quem é o Senhor. Jesus começou a história pondo os apóstolos na cadeira do dono e terminou pondo na boca deles a fala do servo.

“Somos servos inúteis”

Então vem a frase que eles devem dizer: “Somos servos inúteis; apenas cumprimos o nosso dever”. “Inúteis”, aqui, se entende pelo versículo 9: servos que não têm crédito a cobrar, porque fizeram só o que lhes foi ordenado. Essa frase não é o que Deus diz dos seus servos. É o que os servos dizem de si mesmos. Ela põe o servo no lugar certo diante do Senhor.

A conta que a gente apresenta

Mesmo sem perceber, a gente guarda uma conta. Orei, fui fiel, servi, dei a oferta, perdoei; então Deus me deve a oração respondida, a vida sem sobressalto, algum reconhecimento, ou pelo menos a sensação de estar acima de quem não faz o mesmo. Os sinais são conhecidos. O ressentimento do “depois de tudo o que eu fiz”. A necessidade de ser notado. A comparação com quem serve menos.

É fácil imaginar o servo cansado ao chegar do campo, e o cansaço não mudava quem ele era. Sem perceber, o coração faz da dificuldade um argumento: quanto mais pesado o dia, mais a gente acha que Deus nos deve.

Paulo e Ana

Tudo o que Jesus tinha mandado antes dessa história envolvia outras pessoas: os pequeninos que não podem tropeçar por nossa causa, o irmão que peca, o irmão que pede perdão. Paulo se apresentava como “servo de Cristo Jesus” (Romanos 1:1) e, preso, escreveu que queria partir e estar com Cristo, “contudo, é mais necessário, por causa de vocês, que eu permaneça no corpo” (Filipenses 1:24). Abrir mão do que mais desejava e ficar, mesmo preso, por causa dos outros, é coisa que só o Espírito cria. Quando a família vira desculpa para não servir mais ninguém, vale perguntar a quem estamos servindo, porque pai, mãe e filho qualquer pessoa ama. Quem cuida de um pai doente ou de um filho que depende de tudo já está servindo. E Lucas conta de Ana, muito idosa, viúva até os oitenta e quatro anos: “Nunca deixava o templo: adorava a Deus jejuando e orando dia e noite” (Lucas 2:37). Oração também é serviço. Orar pelos missionários, pelos casamentos, pelas grávidas e pelos filhos que vão nascer é trabalho, e ninguém fica velho demais para ele.

A quem a gente deve

O servo que não tem nada a cobrar não sai perdendo. Ele não precisa ser senhor de nada nem manter a conta em dia. Ser senhor da própria vida é um lugar para o qual a gente não foi criado e que não aguenta. O servo pode dizer a Deus: tu não precisas me dar mais do que já deste, porque tu és o Senhor e eu sou servo. Nisso há descanso. Tudo o que ele tem, a vida, o chamado, o lugar entre os servos, veio de Cristo, o Senhor que morreu, ressuscitou e quer o bem dos seus. O Pai serviu os seus mandando o Filho para morrer no lugar deles, e continuou sendo Senhor. A maior alegria que a gente tem é ser servo de Cristo.

Um povo de servos assim não disputa quem serve mais. Ora uns pelos outros, encoraja quem está cansado e não procura desculpa quando o Senhor pede algo difícil.

Para hoje

Hoje à noite, lembre uma coisa certa que você fez para Deus nos últimos tempos e que ainda espera ver recompensada, por ele ou por alguém. Entregue essa conta a ele com as palavras do versículo 10 e peça que ele tire de você a necessidade de cobrar.

Oração

Pai, eu confesso a conta que guardo do que fiz para ti e o ressentimento quando ela não é paga do jeito que eu queria. Obrigado porque nada do que eu tenho foi conquistado por mim, e porque o Senhor a quem eu sirvo se entregou por mim. Sustenta quem trabalha hoje sem descanso, sem respeito ou sem pagamento justo, e também os mais velhos e doentes que acham que já não têm como servir. Dá-me alegria em ser teu servo, sem competir com ninguém. Em nome de Jesus, amém.

Para meditar ou conversar

Sozinho ou a dois
  1. “Assim também vocês, quando tiverem feito tudo o que lhes for ordenado” (v. 10): Jesus manda o servo dizer uma frase sobre si mesmo, e não diz ali o que Deus pensa da obediência dele. O que este texto manda você dizer hoje, e o que ele não manda você concluir?
  2. “Aumenta a nossa fé!” (Lucas 17:5): foi o pedido dos apóstolos quando o que Jesus mandou ficou pesado, e a resposta dele foi esta história. O que esse jeito de responder mostra dele? Agradeça por isso em uma frase.
  3. “Será que ele agradecerá ao servo por ter feito o que lhe foi ordenado?” (v. 9): qual foi a última vez que você esperou um obrigado por algo que fez na igreja ou em casa e ele não veio? Diga a Deus de quem você esperava.
  4. “Paulo, servo de Cristo Jesus” (Romanos 1:1): se essa fosse a primeira linha da sua apresentação, o que você pediria hoje a Deus? Peça, sem prometer nada em troca.

Inspirado na pregação "Não mais que sua obrigação! Mantendo as diferenças", da série Inversão de Valores, IBB Planalto.

Texto bíblico: Bíblia Sagrada, Nova Versão Internacional®, NVI®. Copyright © 1993, 2000 by Biblica, Inc.® Usado com permissão. Todos os direitos reservados mundialmente.