Tire primeiro a viga

Jesus pergunta por que você repara no cisco do olho do seu irmão e não vê a viga no próprio olho. O que ele chama de hipocrisia e o que fazer com o cisco depois.

Por Matheus e Andreza11 min de leitura

Dia 14 de 40

Leitura

41“Por que você repara no cisco que está no olho do seu irmão e não se dá conta da viga que está em seu próprio olho? 42Como você pode dizer ao seu irmão: 'Irmão, deixe-me tirar o cisco do seu olho', se você mesmo não consegue ver a viga que está em seu próprio olho? Hipócrita, tire primeiro a viga do seu olho, e então você verá claramente para tirar o cisco do olho do seu irmão.”

Lucas 6:41-42 · NVI

Quando um texto da Bíblia aperta, em quem você pensa primeiro? A gente lê sobre a língua e lembra de alguém em casa. Ouve falar de orgulho e pensa num colega. É rápido, e parece zelo. Esse movimento tem nome no texto de hoje, e o nome não é bonito.

Entre irmãos

Estes dois versículos estão na mesma fala que começa com Jesus olhando para os discípulos e chamando de bem-aventurados os pobres (Lucas 6:20). Pouco antes, ele tinha dito: “Não julguem, e vocês não serão julgados” (Lucas 6:37). E tinha perguntado se um cego pode “guiar outro cego” (Lucas 6:39). Ele fala aos discípulos, com a multidão ouvindo. E repare numa palavra: em dois versículos, “irmão” aparece quatro vezes. A cena é a convivência de quem segue Jesus; hoje, em casa e na igreja.

Um cisco e uma viga

Cisco é aquele farelo que cai no olho numa obra. Viga é a peça pesada que segura um telhado. Jesus exagera de propósito, e o exagero tem graça: alguém com uma viga atravessada no olho, inclinado sobre o irmão, oferecendo ajuda com um cisco. Na cena, cisco e viga são pecado, o que atrapalha a convivência de dois irmãos que precisam se ajudar. E o retrato é de gente lenta para olhar o próprio coração e rápida, prestativa, até animada, para ver o cisco na vida do outro. Quem está na cena repara no cisco e “não se dá conta” da viga. E ainda chama o outro de “Irmão”, com toda a delicadeza.

“Hipócrita”

Então Jesus usa uma palavra forte para gente que o seguia: “Hipócrita”. Jesus não trata isso como um problema de vista. Chama de hipocrisia. Hipocrisia, aqui, é fingir que cuida da santidade do outro sem cuidar da própria. Quem aponta o cisco do irmão está dizendo que pecado é coisa séria, e a viga no próprio olho desmente cada palavra. Os discípulos de Jesus não podem viver de fingimento. A gente não vai amar as pessoas como elas precisam ser amadas se não começar aplicando a palavra ao próprio coração.

O primeiro nome que vem à cabeça

Esse movimento é velho conhecido. Lendo a Bíblia, a primeira pessoa em quem a gente pensa raramente é a gente mesmo. Quem ensina corre o risco de ler pensando na próxima aula. Numa conversa de casal em crise, cada um diz “não sou perfeito, mas…” e termina falando do outro. Se você duvida, pergunte a quem mora com você qual é a sua viga: costuma estar à vista de todo mundo, menos de quem a carrega. Por baixo disso tudo mora um coração que se acha um pouco melhor do que os outros. O marido que se acha melhor do que a esposa; a esposa que se acha mais santa do que o marido. Um cuidado aqui: esta palavra fala de cisco entre irmãos e não pede a ninguém que se cale diante de violência ou de perigo dentro de casa.

Os pecados “que Deus entende”

Existe também um jeito mais sutil de carregar a viga. A gente separa os pecados em dois grupos. Os nossos são daqueles que Deus entende: a fofoca, a preguiça, uma pontinha de inveja. Os impronunciáveis são sempre os dos outros. E ainda contamos progresso: eu fazia cinco, hoje faço três. E tem gente que passa anos ouvindo a palavra sem tratar o próprio pecado, e vira defensora da verdade no dia em que outro tropeça. O que pesa, nessa comparação, é o pecado que a gente não vê nem trata em si mesmo, qualquer que seja o tamanho. Você consegue lembrar de um pecado contra o qual luta agora? O que tem feito com ele?

A palavra de Deus é “mais afiada que qualquer espada de dois gumes” e “julga os pensamentos e intenções do coração” (Hebreus 4:12). É como quem cavou a terra a tarde inteira e só vê a sujeira nas mãos à noite, debaixo da luz do banheiro. A viga aparece quando a luz certa bate nela. É assim que a gente cresce: cortado, tratado, curado e mudado pela palavra.

E então

A ordem de Jesus tem dois tempos: “tire primeiro a viga do seu olho, e então você verá claramente para tirar o cisco do olho do seu irmão”. O cisco é real, e o irmão precisa de ajuda; só que o primeiro olho a ser tratado é o de quem corrige. Confrontar pecado saiu de moda, e ainda assim faz parte da vida de uma comunidade de pecadores salvos pela graça, que ama demais para fazer vista grossa. É como a instrução do avião: colocar a máscara em si mesmo e depois ajudar quem está ao lado. Quando a palavra de Deus chama alguma coisa de pecado, dá para repetir o que ela diz sem sentar na cadeira de juiz com opinião e superioridade. Na prática, o julgamento que Jesus proíbe costuma ter esta cara: alguém que se põe no lugar de Deus, sem esperança, só olhando as falhas, com nunca, sempre e toda vez na boca. Paulo ensinou que, se alguém for “surpreendido em algum pecado”, os irmãos devem restaurá-lo “com mansidão”, e cada um deve cuidar de si para também não ser tentado (Gálatas 6:1). Dita com mansidão, a verdade restaura o irmão.

Pense em alguém que quase nunca vai à reunião de oração e, um dia, diz que você ora pouco. Dá para se defender, ou dá para pensar no que ele disse. Quem muda depois de ouvir pode, mais tarde, ir até ele como quem também foi ajudado. Maturidade é ouvir a palavra e trazer para si primeiro. Quem amadurece deixa de ser o identificador de problemas, o primeiro a dizer “mas ele tem problema com isso” quando surge um nome na conversa. Uma das razões de a gente passar anos sem crescer é não deixar a palavra chegar ao próprio coração; a pessoa vira frequentadora habilidosa de igreja e para por aí.

O único sem viga

Quem faz esta comparação é o único que podia apontar todos os ciscos sem ter viga nenhuma. Ele chamou a hipocrisia pelo nome e, depois, foi à cruz: “Cristo sofreu pelos pecados uma vez por todas, o justo pelos injustos, para conduzir-nos a Deus” (1 Pedro 3:18). Se você segue Jesus e foi tratado assim, pode olhar a própria viga sem medo e ir ao irmão com a mesma graça que recebeu.

Para hoje

Hoje, ore o Salmo 139:23-24 lembrando do erro alheio que você mais comentou nesta semana, em voz alta ou por dentro. Peça que Deus mostre primeiro o que quer tratar em você e, se ainda for preciso, vá até a pessoa depois, com mansidão.

Oração

“Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração.” Eu tenho pressa com o cisco dos outros e demoro a ver a minha viga. Obrigado porque Cristo, o justo, sofreu pelo injusto que eu sou. Abençoa o irmão cujo erro eu venho comentando, e quem já foi ferido por uma correção sem mansidão. Dá-me mansidão para restaurar. Em nome de Jesus, amém.

Para meditar ou conversar

Sozinho ou a dois
  1. “Tire primeiro a viga do seu olho, e então você verá claramente” (v. 42): a ordem tem dois tempos, e nenhum deles é ficar calado. O que a ordem pede de você hoje, e o que ela não autoriza?
  2. “E então você verá claramente” (v. 42): Jesus diz isso a quem ele acabou de chamar de hipócrita. O que essa promessa mostra do que ele quer fazer com você? Agradeça por isso.
  3. “Se você mesmo não consegue ver a viga que está em seu próprio olho” (v. 42): qual foi a última correção que você recebeu e devolveu, apontando um defeito de quem estava falando? Diga a Deus a frase que você respondeu.
  4. “Deverão restaurá-lo com mansidão” (Gálatas 6:1): o que você pede hoje a Deus para a sua boca, antes de falar com o irmão cujo cisco você já viu? Peça, sem prometer nada em troca.

Inspirado na pregação "Brincando de crescer", da série Inversão de Valores, IBB Planalto.

Texto bíblico: Bíblia Sagrada, Nova Versão Internacional®, NVI®. Copyright © 1993, 2000 by Biblica, Inc.® Usado com permissão. Todos os direitos reservados mundialmente.