Qual destes três?

Um perito na lei pergunta a Jesus quem é o seu próximo, e Jesus conta a história do samaritano. Por que no fim a pergunta volta invertida para quem a fez.

Por Matheus e Andreza12 min de leitura

Dia 21 de 40

Leitura

25Certa ocasião, um perito na lei levantou-se para pôr Jesus à prova e lhe perguntou: “Mestre, o que preciso fazer para herdar a vida eterna?” 26“O que está escrito na Lei?”, respondeu Jesus. “Como você a lê?” 27Ele respondeu: “'Ame o Senhor, o seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todas as suas forças e de todo o seu entendimento' e 'Ame o seu próximo como a si mesmo'”. 28Disse Jesus: “Você respondeu corretamente. Faça isso, e viverá”.

29Mas ele, querendo justificar-se, perguntou a Jesus: “E quem é o meu próximo?” 30Em resposta, disse Jesus: “Um homem descia de Jerusalém para Jericó, quando caiu nas mãos de assaltantes. Estes lhe tiraram as roupas, espancaram-no e se foram, deixando-o quase morto. 31Aconteceu estar descendo pela mesma estrada um sacerdote. Quando viu o homem, passou pelo outro lado. 32E assim também um levita; quando chegou ao lugar e o viu, passou pelo outro lado. 33Mas um samaritano, estando de viagem, chegou onde se encontrava o homem e, quando o viu, teve piedade dele. 34Aproximou-se, enfaixou-lhe as feridas, derramando nelas vinho e óleo. Depois colocou-o sobre o seu próprio animal, levou-o para uma hospedaria e cuidou dele. 35No dia seguinte, deu dois denários ao hospedeiro e lhe disse: 'Cuide dele. Quando eu voltar lhe pagarei todas as despesas que você tiver'.

36“Qual destes três você acha que foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?” 37“Aquele que teve misericórdia dele”, respondeu o perito na lei. Jesus lhe disse: “Vá e faça o mesmo”.

Lucas 10:25-37 · NVI

Até onde vai a sua obrigação com a necessidade dos outros? A pergunta parece sensata, até responsável. Há necessidade em todo canto: no noticiário, na rua, no grupo da família no celular, e ninguém dá conta de todo mundo. Querer saber onde a obrigação termina soa honesto. Um perito na lei fez essa pergunta a Jesus, com outras palavras, e Lucas registrou por que ele a fez.

Uma pergunta respondida

Um perito na lei “levantou-se para pôr Jesus à prova” e perguntou o que precisava fazer para herdar a vida eterna. Jesus devolveu com outra pergunta: “O que está escrito na Lei?” E ainda: “Como você a lê?”

O perito respondeu juntando duas frases da Lei: amar a Deus de todo o coração, mandamento que vem de Deuteronômio, e amar o próximo como a si mesmo, que vem de Levítico. Os dois mandamentos andam juntos, e um se mostra no outro. Jesus aprovou: “Você respondeu corretamente. Faça isso, e viverá”. O homem já sabia a resposta. Faltava fazer.

“Querendo justificar-se”

Então vem o versículo 29: “Mas ele, querendo justificar-se, perguntou a Jesus: ‘E quem é o meu próximo?’” Lucas conta o que estava no coração dele. Ele mesmo tinha dado a resposta, e Jesus a aprovou; então procurou uma saída. A saída tem a forma da pergunta da abertura: eu não amo porque não sei direito a quem amar, e isso é complicado. E ela deixa no ar a ideia de que daria para passar a vida sem amar ninguém e, no fim, dizer que não sabia.

Se tem uma coisa em que a gente é bom, é em achar justificativa para não obedecer. Alguma já pode estar sendo montada agora. “Eu já fiz a minha parte outro dia” é uma. “Não sei se essa pessoa merece” é outra.

Alguém do seu povo

A pergunta procura uma linha: quem fica dentro, quem fica fora. E ela tinha onde se apoiar. Em Levítico, o mandamento que o perito citou vem numa frase sobre “alguém do seu povo”: “ame cada um o seu próximo como a si mesmo” (Levítico 19:18). Só que o mesmo capítulo manda tratar o estrangeiro que mora na terra “como o natural da terra. Amem-no como a si mesmos” (Levítico 19:34).

O “meu” de “meu próximo” põe a pessoa no centro, desenhando o círculo à sua volta. E a gente ama com facilidade quem é parecido com a gente, da mesma turma, do mesmo jeito. Quem decide quanto amor dar, e quem se qualifica para recebê-lo, acaba sendo a própria pessoa.

Pela mesma estrada

Jesus responde com uma história. “Um homem descia de Jerusalém para Jericó, quando caiu nas mãos de assaltantes.” Tiraram-lhe as roupas, espancaram-no e foram embora, “deixando-o quase morto”. Tudo o que Jesus conta desse homem é o que lhe aconteceu. Violência assim continua acontecendo, em muitas estradas.

Então passa um sacerdote, “pela mesma estrada”. Depois um levita, que “chegou ao lugar”. Os dois eram gente do serviço do templo. Os dois viram o homem. E os dois fizeram a mesma coisa: “passou pelo outro lado”. Puseram entre eles e o homem caído a maior distância que a estrada permitia.

Jesus não conta o motivo, e quem lê tende a preencher o silêncio com uma razão. Qualquer razão que a gente imagine soa como a justificativa do versículo 29. Informação não faltou a nenhum dos três: todos viram.

Um samaritano

“Mas um samaritano, estando de viagem, chegou onde se encontrava o homem.” Judeus e samaritanos viviam em conflito. É João quem explica, em outra cena: “Pois os judeus não se dão bem com os samaritanos” (João 4:9). A pessoa que o círculo da pergunta deixaria de fora é justamente a que Jesus põe na estrada.

Ele estava “de viagem”, tinha o próprio caminho, como os outros dois. E viu, como eles. Então, “quando o viu, teve piedade dele”. O ver virou movimento por dentro.

“Aproximou-se”

“Aproximou-se, enfaixou-lhe as feridas, derramando nelas vinho e óleo.” Depois pôs o homem “sobre o seu próprio animal”, levou-o para uma hospedaria e cuidou dele. No dia seguinte, deu dois denários ao hospedeiro e disse: “Cuide dele. Quando eu voltar lhe pagarei todas as despesas que você tiver”.

O samaritano tomou para si uma oportunidade que os outros dois deixaram passar. A piedade dele passou para as mãos: gastou tempo e dinheiro, e se comprometeu a pagar o resto na volta. Em português, “próximo” e “aproximar-se” são da mesma família. Os dois primeiros aumentaram a distância; o terceiro a encurtou.

Chegar perto é ajudar do jeito que a pessoa precisa, e às vezes esse jeito é diferente do que ela pede. Isso pede sabedoria, porque existe quem abuse da ajuda, e isso não é razão para fechar o coração.

O perito perguntou quem era o próximo dele, e Jesus respondeu contando de um homem que se aproximou.

O próximo do homem caído

Então Jesus devolve a pergunta pela segunda vez: “Qual destes três você acha que foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?” O ponto de partida passa a ser quem está no chão. A pergunta de Jesus não quer saber quem mereceu a ajuda; quer saber quem chegou perto.

O perito responde certo de novo: “Aquele que teve misericórdia dele”. São duas respostas certas no mesmo texto, e Jesus responde às duas com um “faça”: “Faça isso, e viverá” e “Vá e faça o mesmo”.

A tensão do começo se resolve aqui. A parábola responde com uma estrada só e um homem caído nela. Para quem lê, a pergunta passa a ser pelos que Deus põe no caminho de cada um. A pergunta que servia para se justificar não sobrevive a esta.

O caminho que você já faz

Diante do “Vá e faça o mesmo”, ninguém sai com a ficha limpa. A gente passa pelo outro lado mais vezes do que admite, e diante de alguém caído pensa: já tenho problemas demais. A frase de João vale para gente que faz isso: “Foi assim que Deus manifestou o seu amor entre nós: enviou o seu Filho Unigênito ao mundo, para que pudéssemos viver por meio dele” (1 João 4:9). A vida que o perito perguntou como herdar chega por meio do Filho que Deus enviou.

“Vá e faça o mesmo” foi dito ao perito, e chega a você no caminho que você já faz esta semana, na mesma rua e no mesmo trabalho. Alguém ali está caído.

Para hoje

Vá hoje até alguém cuja necessidade você já viu e de quem vem guardando distância, perto de casa ou no trabalho. Pergunte do que a pessoa precisa e ouça a resposta inteira antes de oferecer qualquer coisa. Se a distância é para se proteger de quem fere você, ela é sabedoria; leve essa necessidade a Deus.

Oração

Senhor, eu sei fazer a pergunta do perito quando já sei a resposta. Já vi gente caída e passei pelo outro lado. Obrigado pela vida que chega a mim por meio do Filho que enviaste ao mundo. Socorre quem foi assaltado, espancado ou largado no caminho, e quem tem uma necessidade que todos veem e de que ninguém se aproxima; e faz que o que eu vejo vire piedade e passos. Amém.

Para meditar ou conversar

Sozinho ou a dois
  1. “Vá e faça o mesmo” (v. 37) é dito a um homem que acabara de citar os dois mandamentos sem errar. O que o texto manda você fazer hoje, e o que ele não manda?
  2. “Você respondeu corretamente. Faça isso, e viverá” (v. 28): o perito tinha se levantado para pôr Jesus à prova, e Jesus confirmou a resposta que o próprio homem deu. O que você agradece hoje no jeito como ele tratou esse homem?
  3. “Quando viu o homem, passou pelo outro lado” (v. 31): qual foi a última vez que você viu uma necessidade de perto e seguiu em frente? Diga a Deus quem era e o que você foi fazer em seguida.
  4. “Quando o viu, teve piedade dele” (v. 33): o que você pede hoje a Deus por essa pessoa, sem prometer nada em troca? Em uma frase.

Inspirado na pregação "Quem é o meu próximo? Quando a ignorância se torna em desculpa fajuta", da série Inversão de Valores, IBB Planalto.

Texto bíblico: Bíblia Sagrada, Nova Versão Internacional®, NVI®. Copyright © 1993, 2000 by Biblica, Inc.® Usado com permissão. Todos os direitos reservados mundialmente.