Como quem serve
Na última ceia, os discípulos discutem qual deles é o maior e Jesus se põe entre eles como quem serve. O que ele muda na ideia de grandeza, e por quê.
Dia 9 de 40
Leitura
24Surgiu também uma discussão entre eles, acerca de qual deles era considerado o maior. 25Jesus lhes disse: “Os reis das nações dominam sobre elas; e os que exercem autoridade sobre elas são chamados benfeitores. 26Mas, vocês não serão assim. Ao contrário, o maior entre vocês deverá ser como o mais jovem, e aquele que governa, como o que serve. 27Pois quem é maior: o que está à mesa, ou o que serve? Não é o que está à mesa? Mas eu estou entre vocês como quem serve.”
A frase “o maior entre vocês deverá ser como o mais jovem” costuma circular como conselho de liderança: sirva as pessoas, e elas vão seguir você. Lida assim, ela promete resultado e fala só com quem tem cargo. Lucas põe essa frase numa mesa, na última Páscoa, logo depois do pão e do cálice dados “em favor de vocês”. E a razão que Jesus dá para ela é ele mesmo.
Na mesma mesa
Quando chegou a hora, Jesus e os seus apóstolos “reclinaram-se à mesa” (Lucas 22:14). Jesus partiu o pão e disse que era o seu corpo, dado em favor deles; tomou o cálice e falou do seu sangue, “derramado em favor de vocês” (Lucas 22:20). Depois disse que a mão de quem ia traí-lo estava ali, com a dele, sobre a mesa, e eles começaram a perguntar entre si quem faria aquilo.
Então Lucas escreve: “Surgiu também uma discussão entre eles”. A pergunta era “qual deles era considerado o maior”. A briga era pela reputação, por quem os outros achavam que valia mais. E não era a primeira vez. Bem antes, quando ainda nem tinham partido para Jerusalém, já tinha começado “uma discussão entre os discípulos acerca de qual deles seria o maior” (Lucas 9:46). Lucas põe as duas conversas lado a lado, a do traidor e a do maior, sem dizer como uma levou à outra. Talvez, ouvindo falar de traição e de despedida, tenham começado a pensar em quem ficaria no lugar dele; Lucas deixa isso em aberto, e o assunto destoa daquela mesa como roupa de festa num velório. O mestre acabava de falar do próprio corpo entregue, e a conversa deles não teve lugar para a dor de quem ia morrer por eles.
Os reis das nações
Jesus responde sem ira, partindo da própria falha deles para ensinar, e começa com uma imagem de fora daquela mesa: “Os reis das nações dominam sobre elas; e os que exercem autoridade sobre elas são chamados benfeitores.” Os reis dominam: usam a autoridade para fazer a própria vontade. E levam o título de benfeitores: querem ser vistos como a fonte do bem que chega ao povo. A autoridade, em si, é boa e vem de Deus; o problema está em usá-la em benefício próprio.
A gente conhece essa lógica de perto. Mede as pessoas por quantas as servem, pelos títulos, pelas conquistas. Quem tem criança pequena em casa sabe como cedo aparece a vontade de mandar em todo mundo. E mesmo quando faz o bem, a gente gosta que saibam quem fez. Sempre há em nós a vontade de ser o centro, nem que seja da família ou dos próprios planos. Brigar por esse lugar é disputar com Deus o que é dele.
“Mas, vocês não serão assim”
“Mas, vocês não serão assim.” Jesus mantém entre eles o maior e o que governa, e muda aquilo com que essa pessoa se parece: “o maior entre vocês deverá ser como o mais jovem, e aquele que governa, como o que serve”. O mais jovem era quem tinha menos peso naquela cultura. Ser como ele é não presumir que sabe tudo nem esperar o lugar de quem está acima.
Grandeza, então, é usar o que Deus deu (o lugar, o tempo, a influência) para que outra pessoa cresça. Muita gente tem alguém que depende dela de algum jeito: um colega mais novo, um aluno, um irmão na fé que está começando. E nada disso depende de cargo.
Quem está à mesa
Então Jesus faz uma pergunta: “Pois quem é maior: o que está à mesa, ou o que serve? Não é o que está à mesa?” É a resposta que qualquer pessoa daria, e o próprio Jesus a dá.
Pense num restaurante. Você escolhe, pede, paga e espera ser bem servido. Sem dizer nada, a gente se sente um pouco acima de quem traz o prato. A gente gosta de chegar e encontrar tudo arrumado, do nosso jeito, na hora que a gente quer.
Como quem serve
“Mas eu estou entre vocês como quem serve.” Quem diz isso é o mesmo que, pouco antes, tinha partido o pão e dado aos discípulos. João conta que, naquela última refeição, Jesus “levantou-se da mesa”, pôs uma toalha na cintura e começou a lavar os pés dos discípulos (João 13:4-5). E o serviço de Jesus foi até o corpo “dado em favor de vocês”. Entre eles, quem mais os alimentava e os beneficiava era Jesus, e ele nunca pediu para ser chamado de benfeitor.
Eles discutiam quem era o maior na mesma mesa em que o maior tinha acabado de partir o pão e dá-lo a eles.
Servir como ele
Servir, do jeito de Jesus, é dar ao outro o que ele precisa e não consegue obter sozinho. Às vezes é ouvir alguém sem pressa. Às vezes é tomar a iniciativa de ajudar em algo que ninguém pediu. Também pode ser orar por alguém, ou ajudar alguém a procurar emprego. Nenhuma tarefa, por si, faz alguém maior. Jesus também mandou Pedro e João: “Vão preparar a refeição da Páscoa” (Lucas 22:8). Servir como ele inclui dividir o trabalho, e quem já serve até a exaustão pode ler isso com alívio.
O difícil costuma ser a tarefa que a gente acha abaixo de si, por causa do cargo, do diploma ou do dinheiro. João escreveu a razão de tudo isso: “Jesus Cristo deu a sua vida por nós, e devemos dar a nossa vida por nossos irmãos” (1 João 3:16).
Os que ficaram
Logo depois da correção, Jesus diz aos mesmos homens: “Vocês são os que têm permanecido ao meu lado durante as minhas provações” (Lucas 22:28). Ele podia tê-los trocado por discípulos melhores, e não trocou. Olhou o todo e reconheceu quem tinha ficado. Corrigiu e continuou à mesa com eles.
Séculos antes, Isaías tinha se espantado com um Deus “que trabalha para aqueles que nele esperam” (Isaías 64:4). À mesa da última Páscoa, esse Deus serviu com as próprias mãos. Ele é o servo, e é o maior de todos. Quem o segue hoje pode saber que o pão e o cálice também foram dados em seu favor. Quem serve como ele foi servido por ele primeiro.
Para hoje
Na próxima refeição com alguém, fique com o lugar de quem serve: sirva os outros primeiro e recolha o que ficar na mesa. Enquanto isso, agradeça a Jesus por ter estado entre os seus como quem serve (v. 27).
Oração
Senhor Jesus, tu estás entre nós como quem serve, e eu ainda quero ser considerado, ser servido e ser lembrado pelo bem que faço. Obrigado pelo teu corpo dado e pelo teu sangue derramado em meu favor. Olha por quem vive debaixo de alguém que manda para se servir, e por quem serve cansado. Dá-me olhos para o que o outro não consegue fazer sozinho. Amém.
Para meditar ou conversar
Sozinho ou a dois- Jesus não tira o lugar de quem governa nem passa uma lista de tarefas: ele diz com quem o maior deve se parecer (v. 26). O que ele cobra de você hoje, e o que ele não chega a cobrar?
- “Mas eu estou entre vocês como quem serve” (v. 27): ele disse isso na mesa em que tinha acabado de partir o pão e dá-lo a eles. O que isso mostra do jeito dele estar entre os seus? Agradeça por isso.
- “são chamados benfeitores” (v. 25): qual foi o último bem que você fez e deu um jeito de alguém saber? Diga a Deus quem você quis que soubesse.
- “que trabalha para aqueles que nele esperam” (Isaías 64:4): o que você pede a ele hoje para a próxima vez em que sobrar para você a tarefa que ninguém quer? Em uma frase, sem prometer nada em troca.
Inspirado na pregação "Definindo grandeza", da série Inversão de Valores, IBB Planalto.
Texto bíblico: Bíblia Sagrada, Nova Versão Internacional®, NVI®. Copyright © 1993, 2000 by Biblica, Inc.® Usado com permissão. Todos os direitos reservados mundialmente.