Todo o que se exalta será humilhado
Num banquete, Jesus repara nos convidados escolhendo os lugares de honra. Por que ele manda ocupar o último lugar e o que a cena mostra sobre a honra que a gente procura.
Dia 10 de 40
Leitura
7Quando notou como os convidados escolhiam os lugares de honra à mesa, Jesus lhes contou esta parábola: 8“Quando alguém o convidar para um banquete de casamento, não ocupe o lugar de honra, pois pode ser que tenha sido convidado alguém de maior honra do que você. 9Se for assim, aquele que convidou os dois virá e lhe dirá: 'Dê o lugar a este'. Então, humilhado, você precisará ocupar o lugar menos importante. 10Mas quando você for convidado, ocupe o lugar menos importante, de forma que, quando vier aquele que o convidou, diga-lhe: 'Amigo, passe para um lugar mais importante'. Então você será honrado na presença de todos os convidados. 11Pois todo o que se exalta será humilhado, e o que se humilha será exaltado”.
Que importância pode ter o lugar onde alguém se senta numa festa? Pense na mesa longe dos noivos, no nome que ficou de fora do agradecimento, na cadeira do canto enquanto outra pessoa recebe o microfone. Quase todo mundo já sentiu isso e achou pequeno demais para contar a alguém. Jesus, convidado para comer na casa de um fariseu importante, reparou justamente nisso. E fechou a parábola com uma frase do tamanho da vida: “todo o que se exalta será humilhado”.
À mesa do fariseu
Lucas conta que, num sábado, Jesus entrou para comer na casa de um fariseu importante, e que “observavam-no atentamente” (Lucas 14:1). Diante dele havia um homem doente, com o corpo inchado. Jesus perguntou aos fariseus e aos peritos na lei se era permitido curar no sábado. Eles ficaram em silêncio, ele curou o homem, e eles nada puderam responder à pergunta seguinte, sobre o filho ou o boi que cai num poço em dia de sábado.
Depois disso, a mesa vira. Quem estava sendo observado passa a observar. Jesus “notou como os convidados escolhiam os lugares de honra à mesa” e contou a eles “esta parábola”. A palavra “parábola” avisa que a cena da festa vai levar a um ensino maior, e o versículo 11 diz qual.
O lugar de honra
A cena é um banquete de casamento, com gente escolhendo onde sentar. Jesus aponta um risco que qualquer convidado entendia: “pode ser que tenha sido convidado alguém de maior honra do que você”. Quem corre para o lugar de honra age como se soubesse a lista de convidados. Quem sabe a lista é “aquele que convidou os dois”. E aí vem a frase que ninguém quer ouvir: “Dê o lugar a este”. Depois, a caminhada, humilhado, até o lugar menos importante.
Quem conhecia as Escrituras reconheceria o conselho. Provérbios já dizia: “Não se engrandeça na presença do rei, e não reivindique lugar entre os homens importantes; é melhor que o rei lhe diga: ‘Suba para cá!’, do que ter que humilhá-lo diante de uma autoridade” (Provérbios 25:6-7). A parábola ecoa esse provérbio, agora numa festa de casamento.
“Amigo”
Então Jesus dá o conselho oposto: ocupe o lugar menos importante, “de forma que, quando vier aquele que o convidou, diga-lhe: ‘Amigo, passe para um lugar mais importante’”. A honra, agora, acontece “na presença de todos os convidados”. E ela sai da boca de quem convidou, e a primeira palavra é “Amigo”. O lugar mais importante chega pela mão de quem conhece a lista de convidados e sabe quem cada um é.
Numa festa de verdade, o conselho funciona, e Jesus diz isso sem rodeio. Mas ele ainda não terminou. A frase seguinte muda o tamanho da conversa.
Todo o que se exalta
“Pois todo o que se exalta será humilhado, e o que se humilha será exaltado”. O “pois” liga a parábola a um princípio, e o princípio sai da festa. “Todo o que” vale para qualquer pessoa, em qualquer mesa. O versículo não diz quem humilha e quem exalta, mas o texto já mostrou o caminho. Em Provérbios, quem manda subir é o rei. Na parábola, é quem convidou. E quem tem autoridade para mudar qualquer pessoa de lugar é Deus: diante dele, é assim com a vida inteira. A palavra é a mesma da cena: o convidado que teve de descer foi “humilhado”, e o versículo 11 usa essa palavra para todo o que se exalta, em qualquer mesa.
Os lugares que a gente escolhe
Hoje quase ninguém disputa cadeira em festa, mas a gente escolhe o lugar de honra de outros jeitos. O crédito por um trabalho que foi de vários. A última palavra numa discussão em casa. A conversa que a gente sempre puxa para si. E às vezes a disputa acontece em silêncio: a gente deixa de elogiar alguém para não perder espaço.
E o versículo 10 pode virar armadilha. Dá para sentar no fundo e ficar contando quanto tempo o dono da casa demora para chamar. Quem faz isso continua de olho no mesmo lugar, só por um caminho mais comprido. A humildade do versículo 11 não é outro caminho para o lugar de honra: é o lugar de quem sabe quem é diante de Deus.
A raiz
Se a humildade do versículo 11 é mais do que pose, de onde ela vem? Uma palavra responde: conhecimento. Quem conhece o próprio coração, quem conhece a santidade de Deus e quem sabe o preço que Cristo pagou por ele não consegue ser orgulhoso. O orgulho nasce de não saber quem a gente é, quem Deus é e quem Cristo é. E conhecer o próprio pecado e a própria fraqueza, e sentir que precisa de Cristo, é por onde começa a fé verdadeira.
Jacó, já rico e com medo de reencontrar o irmão Esaú, orou assim: “não sou digno de toda a bondade e lealdade com que trataste o teu servo. Quando atravessei o Jordão eu tinha apenas o meu cajado, mas agora possuo duas caravanas” (Gênesis 32:10). Ele sabia que tudo tinha sido dado. E Paulo, já no ministério, escreveu: “Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o pior” (1 Timóteo 1:15). Esse conhecimento não o esmagava, porque vinha junto com Cristo. Quem se conhece assim consegue fazer o que Paulo pediu aos filipenses: “humildemente considerem os outros superiores a si mesmos” (Filipenses 2:3). Quem sabe o que recebeu consegue olhar para o outro sem precisar ganhar dele.
O banquete do Reino
Na mesma refeição, um dos que estavam à mesa disse a Jesus: “Feliz será aquele que comer no banquete do Reino de Deus” (Lucas 14:15). Essa festa de casamento lembra outra mesa. Nela ninguém se senta por direito. Quem está lá foi convidado, e o convite custou a vida de Cristo.
Se você foi convidado para essa mesa, pode perder a pressa pelo lugar. Pode esperar a palavra de quem convidou e deixar o próprio lugar nas mãos dele.
Para hoje
Pense numa pessoa com quem você costuma disputar lugar, seja atenção, razão ou reconhecimento. Hoje, ore por ela pelo nome, peça a Deus que ela seja honrada e deixe com ele o seu próprio lugar.
Oração
Pai, eu corro para o lugar de honra, e às vezes caio na humildade calculada, que senta no fundo esperando ser chamada. Obrigado pelo convite que eu não merecia e que custou a vida de Cristo. Cuida de quem vive no lugar menos importante sem ter escolhido, dos esquecidos e dos humilhados diante dos outros. Ensina-me a conhecer a mim mesmo e a ti, como Jacó e Paulo conheceram. Em nome de Jesus, amém.
Para meditar ou conversar
Sozinho ou a dois- Jesus conta a parábola a convidados que estavam escolhendo onde sentar, e quem muda alguém de lugar na história é sempre quem convidou (v. 7-11). O que este texto pede de você hoje, e o que ele não pede?
- Jesus “notou como os convidados escolhiam os lugares de honra à mesa” (v. 7) e respondeu com uma parábola dirigida a todos, sem apontar ninguém pelo nome. O que isso mostra do jeito dele corrigir quem está à mesa com ele?
- “ocupe o lugar menos importante” (v. 10): qual foi a última vez que você ficou calado numa conversa esperando que alguém lembrasse de você? Diga a Deus o que você esperava ouvir.
- “todo o que se exalta será humilhado, e o que se humilha será exaltado” (v. 11): o que você pede a Deus hoje sobre o lugar que você mais quer ocupar? Em uma frase, sem prometer nada em troca.
Com base no comentário de J.C. Ryle a Lucas 14:7-11 (Expository Thoughts on Luke).
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