Foi para casa justificado

Dois homens sobem ao templo para orar, um fariseu e um publicano. Por que só um deles volta para casa justificado, e o que a oração de cada um revela.

Por Matheus e Andreza11 min de leitura

Dia 17 de 40

Leitura

9A alguns que confiavam em sua própria justiça e desprezavam os outros, Jesus contou esta parábola: 10“Dois homens subiram ao templo para orar; um era fariseu e o outro, publicano. 11O fariseu, em pé, orava no íntimo: 'Deus, eu te agradeço porque não sou como os outros homens: ladrões, corruptos, adúlteros; nem mesmo como este publicano. 12Jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho'.

13“Mas o publicano ficou à distância. Ele nem ousava olhar para o céu, mas batendo no peito, dizia: 'Deus, tem misericórdia de mim, que sou pecador'.

14“Eu lhes digo que este homem, e não o outro, foi para casa justificado diante de Deus. Pois quem se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado”.

Lucas 18:9-14 · NVI

Numa frase só: por que Deus deveria aceitar você? O que sairia primeiro? Muita gente responde com o que tem de bom: não faço mal a ninguém, ajudo quem precisa, procuro ser honesto. É o jeito de quem acha que é gente boa e que Deus vai aprovar o que faz. Jesus contou a história de dois homens que subiram ao templo e, cada um do seu jeito, deram a essa mesma pergunta respostas opostas diante de Deus.

A quem ele contou

Lucas começa pelo endereço, antes da história: “A alguns que confiavam em sua própria justiça e desprezavam os outros”. Ele descreve essa gente pelo que fazia. Confiavam em si e desprezavam os outros, e as duas coisas vêm na mesma frase porque andam juntas. Quem se apoia no próprio valor precisa de alguém abaixo para medir a distância.

Logo antes, Jesus tinha contado uma parábola “para mostrar-lhes que eles deviam orar sempre e nunca desanimar” (Lucas 18:1). Aquela ensinava a insistir na oração. Esta mostra com que coração se ora.

Dois homens subiram ao templo

“Dois homens subiram ao templo para orar.” Os dois sobem ao mesmo templo para a mesma coisa: orar. Quem ouvia sabia o que cada nome carregava. O fariseu era homem da lei, de reputação religiosa, respeitado pelo zelo. O publicano cobrava impostos, e o risco da profissão era cobrar a mais. Quando alguns publicanos foram ser batizados e perguntaram a João o que deviam fazer, a resposta foi direta: “Não cobrem nada além do que lhes foi estipulado” (Lucas 3:12-13). Em Lucas, os publicanos aparecem várias vezes na mesma frase que os pecadores.

Na cena, sobem ao templo o homem de melhor reputação e o de pior. Quem ouvisse só o começo já saberia qual dos dois tinha a vida em ordem, e esperaria outro fim.

O que o fariseu disse

O fariseu ora em pé, “no íntimo”. Agradece a Deus e diz o que não é: “ladrões, corruptos, adúlteros”. Depois diz o que faz: “Jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho”. Ele pode mesmo ter feito tudo isso. A oração não confessa nada e não pede nada. É um relato do que ele fez, com uma palavra de desprezo para outro pecador que também tinha subido para orar, e mal merece o nome de oração.

E ela precisa do outro homem para ficar completa: “nem mesmo como este publicano”. Quem se mede pelo vizinho sempre encontra alguém pior, e assim nunca precisa pedir nada. A Bíblia já tinha dito o que vale até para quem pratica o bem: “não há um só justo na terra, ninguém que pratique o bem e nunca peque” (Eclesiastes 7:20). O fariseu podia ser mais correto do que muita gente. Diante de Deus, a medida é o que o próprio Deus exige.

“Tem misericórdia de mim”

Depois vem o outro: “Mas o publicano ficou à distância. Ele nem ousava olhar para o céu”. Batia no peito e dizia: “Deus, tem misericórdia de mim, que sou pecador”. As duas orações começam com a mesma palavra, “Deus”, e daí seguem para lados opostos.

A do publicano pede alguma coisa. Uma oração que só agradece e relata serviria para quem não precisa de nada; ele precisa, e diz. Também é pessoal: fala “de mim”. O fariseu tinha falado dele, e ele não diz uma palavra sobre o fariseu. E o que ele pede é misericórdia, a primeira coisa de que um pecador precisa. Ele diz com clareza o que é, pecador, e é por aí que tudo começa: ninguém começa a ser bom enquanto não consegue sentir e confessar que é mau. Pedir misericórdia, mesmo com uma fé fraca, já é contar que ela existe. Lucas registra o gesto de bater no peito sem explicar, e o gesto se parece com o de quem sente mais do que consegue dizer.

Justificado diante de Deus

Então Jesus dá o veredito: “Eu lhes digo que este homem, e não o outro, foi para casa justificado diante de Deus”. Quem fala é ele, com autoridade própria, para gente que confiava em si, e o que diz é o contrário do que ela esperava. Justificado quer dizer acertado com Deus, declarado justo diante dele. O publicano volta para casa com o caso resolvido, e tudo o que ele tinha levado ao templo era o pedido.

A palavra que faltou na oração do fariseu, misericórdia, foi a que o publicano pediu, e ele foi para casa justificado diante de Deus.

O Salmo 51 já dizia: “um coração quebrantado e contrito, ó Deus, não desprezarás” (Salmos 51:17). Os que confiavam em si desprezavam os outros, e Deus não despreza quem chega quebrado diante dele.

Não sou como os outros

A oração do fariseu raramente sai em voz alta, e a gente a faz por dentro mais do que gostaria de admitir. Ela aparece no alívio ao saber da queda de alguém, com um “pelo menos eu não…” logo atrás. Aparece também na oração que só agradece e informa, e há muito tempo não pede misericórdia. É uma doença de família, de todos os filhos de Adão: por dentro, a gente se acha menos mau do que alguns e acredita ter algo que mereça o favor de Deus. Daí sai o currículo: não sou dos piores, faço a minha parte.

Jó já perguntava como alguém pode ser justo diante de Deus, e reconhecia: “Ainda que quisesse discutir com ele, não conseguiria argumentar nem uma vez em mil” (Jó 9:3). E o currículo traz junto o desprezo pelos outros, porque é o desprezo que sustenta a comparação.

À distância

O publicano ficou longe, sem coragem de olhar para o alto, e foi ele quem terminou o dia acertado com Deus. Isso consola quem sente o peso dos próprios pecados e só consegue pedir misericórdia. Os pecados podem ser muitos e grandes. A oração pode sair fraca, cheia de pausas, sem ordem. A parábola mostra que esse pedido é ouvido. Feliz de quem não tem vergonha de se sentar ao lado do publicano. Jesus, que aprovou aquela oração, está hoje à direita de Deus para receber pecadores. O publicano orou de onde estava, à distância, e as palavras dele servem a quem acha que já foi longe demais para orar.

Para hoje

Ore hoje a oração do publicano, com as palavras do versículo 13 e sem acrescentar nada. Se durante o dia aparecer por dentro um “pelo menos eu não...”, volte a ela.

Oração

Deus, a oração do fariseu sai de dentro de mim mais vezes do que eu gostaria de dizer. Deus, tem misericórdia de mim, que sou pecador. Obrigado porque Jesus declarou justificado um homem que só tinha esse pedido. Alcança quem hoje não ousa olhar para o alto, e tira de mim o desprezo pelos outros. Por Jesus, amém.

Para meditar ou conversar

Sozinho ou a dois
  1. Nesta parábola Jesus não dá nenhuma ordem: ele conta dois homens orando e diz qual dos dois voltou para casa justificado (v. 10-14). O que ela pede de você hoje, e o que ela não pede?
  2. “um coração quebrantado e contrito, ó Deus, não desprezarás” (Salmos 51:17): o publicano levou ao templo um pedido e nada mais, e voltou acertado com Deus. O que isso mostra de Deus para você agradecer hoje?
  3. “Jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho” (v. 12): qual foi a última coisa boa sua que você citou numa oração? Conte a Deus por que você citou aquilo.
  4. “não há um só justo na terra, ninguém que pratique o bem e nunca peque” (Eclesiastes 7:20): o que você pede hoje a Deus sem usar nenhum argumento seu, e sem oferecer nada em troca?

Com base no comentário de J.C. Ryle a Lucas 18:9-14 (Expository Thoughts on Luke).

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